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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Olha para nós!



A riqueza da Bíblia é inegável. Entra ano e sai ano e ela continua lá, servindo como fonte de inspiração para muitas pessoas. Apesar de não interpretá-la ao pé da letra, de não compreendê-la como 'A' palavra de Deus, mas como uma produção humana, eu reconheço a sua importância. Infelizmente o livro sagrado dos cristãos tem sido fartamente utilizado para fomentar o ódio, promover segregações, embasar preconceitos, monitorar e manipular vidas e legitimar todo tipo de pensamento em nome de Deus. Quando utilizada de maneira lúcida, contextualizada, responsável e sem pretensões de dogmatização, ela pode nos proporcionar interessantes reflexões.

Quero compartilhar com vocês um dos momentos interessantes do Novo Testamento. Não irei me ater a ficar discutindo se o milagre realmente aconteceu ou não. Utilizarei o texto bíblico apenas como ilustração, como fio condutor do meu texto. Quanto aos aspectos religiosos/sobrenaturais do relato, cada um acredite no que quiser.

O livro de Atos dos Apóstolos diz no capítulo 3 que Pedro e João, discípulos de Jesus, estavam subindo para o templo às três da tarde ao mesmo tempo em que um aleijado também era levado para lá. Todos os dias ele era colocado à porta do templo para mendigar e ao ver os discípulos, pediu uma esmola. A cena que se  desenvolve então, segundo o relato  bíblico, é a seguinte:

Pedro e João olharam bem para ele, e, então, Pedro disse: "Olhe para nós"! O homem olhou para eles com atenção, esperando receber alguma coisa. Disse Pedro: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isto lhe dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande." E o homem então foi curado de sua paralisia.

 De todos os sentidos, talvez a visão seja o mais explorado do século XXI. A quantidade de informações a que os nossos olhos são submetidos dia-a-dia é surpreendente. Tudo passa pelo campo do olhar. Dizer Olhe para nós em 2012 é praticamente uma redundância. Brinquei com um amigo recentemente dizendo que hoje existe uma câmera de vídeo em todos os lugares, até nos mais insólitos. Devemos sorrir, pois quase sempre estamos sendo filmados. Quantas são as pessoas que hoje se comportam como tortas em vitrines? Quantas são as pessoas que se oferecem a olhares vorazes e críticos em redes sociais de todo o planeta? No afã de ter visibilidade, as pessoas fazem coisas absurdas, desde gravar vídeos com imbecilidades sem medida até coisas bastante lamentáveis, como sentar em frente a uma filmadora e fazer um sanduíche usando a própria genitália. 

Querer visibilidade não é pecado. Querer ser admirado também não. Querer ser celebridade, depende. O problema é que as pessoas querem ser celebridade sem passarem pela fase de 'fazer' uma celebridade. Explico: para mim, celebridade é quem faz algo célebre, ou que pelo menos traga algum tipo de contribuição para esse mundo que está em estado de erosão, onde vemos dia-a-dia os valores éticos e morais se desintegrarem. Todo mundo quer ser visto, mas poucos se propõem a fazer algo importante. Querem apenas sucesso fácil. Em sua maioria, esses sucessos são desmerecidos, conseguidos à base da sorte, do dinheiro ou como um reflexo de uma sociedade embrutecida e emburrecida.

Já se tornou banal vermos (em sites de conteúdo duvidoso, obviamente) manchetes mostrando aquela subcelebridade que "sem querer" pagou calcinha ou peitinho. Já repararam em como o mar anda  assanhado, arrancando biquinis de moças "descuidadas"? Atualmente, vale tudo para alcançar visibilidade, desde mostrar o seio até simular uma briga com o irmão e ameaçar acabar com a dupla para chamar atenção da mídia. Tem gente que chega ao cúmulo de ligar para redação do site Ego para avisar que estará na praia tal e que vai beijar o namorado, como se isso fosse algo fenomenal.


Dizer "olha para mim" é fácil, difícil é ter algo substancial para mostrar/oferecer. Eu olho para você, mas o que você tem para oferecer? Pedro e João tinham o que oferecer. Aliás, eles tinham muito mais do que o aleijado poderia almejar. E ofereceram.

Quanta gente existe por aí com tão pouco para oferecer, mas querendo ser célebre. Quanta gente existe por aí com tanto para oferecer, mas fechando-se como uma concha por medo ou falta de oportunidades. O mercado fonográfico, por exemplo, anda tão saturado com tanto novos "talentos" que não  há espaço para talentos "excepcionais". Explico novamente: No Brasil, qualquer cantor que consiga alcançar uma notinha  mais alta já pode ser considerado como de talento excepcional já que, pelo visto, qualquer um nessas terras tupiniquins tem talento, de Ed Motta a Valeska Popozuda. Suspeito que as pessoas daqui pensam que emitir sons vocais ao som de algum instrumento musical é a mesma coisa que cantar. Num país onde uma grande revista estampa o cantor Michel Teló em sua capa e o descreve como representante da cultura popular não há lugar para um talento como o de André Leonno, ou qualquer ex-calouro do Raul Gil, todos quase sempre com talento e voz muito superiores aos nossos já consagrados artistas. E é isso que a gente vai vendo: gente querendo ostentar um tesouro que não tem e gente enterrando tesouros que poderiam ser compartilhados. Em ambos os casos, só tenho a lamentar.

Ao dizer "olha para nós", provavelmente Pedro exigiu do aleijado um exercício de autoestima. Estando ele sentado no chão, teria que erguer a cabeça poder visualizar os discípulos. Acostumado a viver como um trapo humano invisível e a ser ignorado, provavelmente o nosso personagem já estivesse desacostumado a olhar as pessoas nos olhos. Sua condição de aleijado e de mendigo provavelmente já havia lhe roubado a autoestima. Ao olhar para Pedro, ele pôde ver sua vida mudar. Penso que o importante da vida seja isso: poder contribuir. Penso que qualquer tipo de sucesso que não traga beleza, contemplação, amenização de dores ou mudanças substanciais não deve ser considerado como sucesso e, como tal, não é digno de holofotes. Fazer sucesso é bom, mas ser um diferencial na vida das pessoas é muito melhor.

Eu quero ser olhado, mas quero ser olhado com admiração. Quero ser olhado como uma caixa com conteúdo, não quero ser olhado como algo que até reluz, mas que não é ouro. Quando eu estiver com meus 90 anos quero, mais do tudo na vida, ouvir o meu nome e sentir orgulho dele. 
Postado por Roney Torres às 08:12 1 comentários Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook

sábado, 10 de dezembro de 2011

Nota de esclarecimento: a revolução dos "ervo-afetivos"

Devo esclarecer aos meus leitores que o post "Na contramão: a revolução dos ervo-afetivos" fora escrito ainda sob o calor dos primeiros acontecimentos no campus da USP. Ao escrevê-lo eu não tinha todas as informações sobre o que realmente se passava lá. Hoje eu sei que todo o movimento não foi apenas pelo direito de fumar maconha.

Passados tantos dias, já sabemos que o movimento é extremamente político (no sentido literal da palavra), com participação de partidos e tudo mais. Também sabemos que há uma luta contra abusos por parte da reitoria e contra processos administrativos. Sendo assim, esclareço que o post está desatualizado, mas mesmo assim creio que ainda há algumas considerações que valem a pena serem ponderadas.

Mudei a minha opinião sobre a presença da polícia no campus? Não.
Mudei a minha opinião sobre a forma errada pela qual os estudantes trataram os policiais, depredaram o espaço e apedrejaram as viaturas? Não.
Mudei a minha opinião sobre a falta de argumentos dos alunos? Não.

Hoje vejo que a luta poderia até ser digna, mas os meios usados não o são. Não podemos, enquanto sociedade, tratarmos policiais como inimigos. O dia que isso se tornar comum, estaremos perdidos.

Sobretudo, está mais do que na hora de parar com essa mimação. O que vemos todo dia agora é gente que se acha no direito de quebrar as coisas quando seus anseios não são prontamente atendidos.

Postado por Roney Torres às 04:57 0 comentários Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Na contramão: A revolução dos "ervo-afetivos"


No dia 30 de março de 1968 foi realizada na Catedral da Sé, em São Paulo, uma missa em memória de Alexandre Vannucchi Leme, aluno da Universidade de São Paulo (USP), preso e morto pelos militares. Alexandre não foi o primeiro e nem o último estudante a pagar com a própria vida pelo desejo de viver num país melhor. Antes e depois desta data, estudantes foram perseguidos, torturados e mortos. Este primeiro parágrafo é apenas para deixar claro para quem está achando um absurdo o policiamento nas dependências da USP que a coisa já foi bem pior para os estudantes.


A USP está novamente no centro de discussões no país por causa do recolhimento de três estudantes do curso de Geografia apanhados portando maconha dentro do campus. A prisão dos três acabou gerando um confronto entre estudantes e policiais e a ocupação pelos alunos do prédio da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Existe um convênio assinado entre a entidade e a PM com a anuência de todas as unidades presentes no espaço, com representação de professores, funcionários e estudantes. A decisão pelo aumento do policiamento (que já existia) nas dependências da cidade universitária foi motivada pelo assassinato de um estudante no estacionamento da Faculdade de Economia e Administração. Vale lembrar que a decisão de assinar o convênio foi aprovada por ampla maioria, recebendo apenas um voto contra. De acordo com os dados, a presença mais ostensiva da polícia reduziu em 60% o número de furtos e roubos. Este segundo parágrafo é apenas para deixar claro que o policiamento na USP é necessário e consensual, não foi uma decisão arbitrária ou imposta pelo reitor da instituição. E mais: os próprios alunos do campus (os que tem bom senso) já demonstraram através de nota pública que são a favor da presença dos policiais no Campus. Ver http://migre.me/61ESX.



Não vou entrar na discussão sobre a legalização/descriminalização da maconha. Legalizada ou não, continua sendo droga. Não acredito que melhorará a questão do tráfico e continuará não fazendo bem. Droga para mim é pauta encerrada: sou terminantemente contra. Meus motivos são bem simples: O primeiro é que eu acho que ninguém precisa delas para viver bem, assim como não precisa de cigarro e de bebida. O segundo é que eu penso que uma droga como a maconha pode não ser tão nociva e degradante como o craque, mas dificilmente se encontra por aí usuários de craque que não tenham passado pela maconha. Ela é porta de entrada para a inserção no mundo das drogas mais pesadas. A pessoa começa fumando o seu baseado, logo ele se torna insuficiente e ela vai procurar um barato mais forte. O terceiro motivo é que maconha, assim como qualquer droga, alimenta o tráfico. Não chegarei, contudo, ao ponto de ser leviano e imaturo ao ponto de, como muita gente por aí, afirmar que o grande problema da USP são as drogas. 

O meu alvo neste texto não são as drogas, elas pouco me interessam. Quer usar? Use! É direito inalienável de qualquer um fazer o que quiser da sua própria vida, inclusive acabar com ela se lhe parecer viável. Meu foco neste texto, portanto, são os estudantes. São tantas coisas a serem ditas que nem sei por onde começar mas salta aos olhos o despreparo destes "ervo-afetivos" que se dizem estudantes. Reparem o cartaz abaixo: 


O que dizer de estudantes universitários que na hora da discussão com os policiais ostentavam livros de Karl Marx, mas que mal sabem escrever a palavra "trabalhadores"? Reparem que no cartaz foi escrito "Trabaliadores", sendo depois remendado na tentativa de transformar um "i" em um "h". Acreditem, tem coisas piores que o erro ortográfico neste cartaz. Em letras garrafais está escrito: "Os policiais não são 'trabaliadores', são o braço armado dos exploradores". Falácia. Expressão inverídica. Por mais que os nossos policiais sejam truculentos, despreparados e arrogantes, são trabalhadores. E pior ainda: são trabalhadores muito mal remunerados. Tem a banda podre, desonesta, abusiva e corrupta? Certamente, assim como existem professores, advogados, médicos e pastores na mesma condição. Se estão a serviço ou não de exploradores, já é outra questão. Penso também no seguinte: colaborar com os traficantes é mais digno do que servir de braço armado para os exploradores? É o povo que coloca os exploradores lá, não os policiais. Se querem resolver o problema da exploração e da desigualdade, tem que mexer em esferas mais elevadas. Retirar os policiais do campus ou dos morros não irá diminuir em nada essa suposta exploração, só facilitará a ação da bandidagem. Se estes estudantes estão realmente preocupados com a questão social, ao invés de ficarem amotinados ou destruindo o patrimônio que é público, bancado por pessoas de bem que pagam impostos, deveriam estar nas ruas bradando contra a a exploração. 


Em letras menores, podemos ler no cartaz: "Fora PM dos morros e favelas". Ora, tem alguém mais interessado em ver morros e favelas sem policiamento do que o pessoal do tráfico? Não seria igualmente interessante para os traficantes uma USP sem policiamento? Esta reivindicação me fez pensar seriamente sobre  a serviço de quem essa galera está e, para piorar, vem a outra frase: "Pelo fim do genocídio do povo negro". Alguém poderia me explicar o que esta pérola tem a ver com o contexto? Alguém poderia explicar para esses universitários que "genocídio" não se adequa à questão do negro no Brasil? A palavra  genocídio é utilizada quando uma etnia tenta exterminar a outra. Estamos falando de morte. Nunca houve no Brasil um projeto de brancos para exterminar os negros, mas para escravizá-los. Escravização, exploração e genocídio são coisas bastante diferentes. Qualquer historiador ou antropólogo mediano deveria saber disso.  


O cartaz, caros amigos, é extremamente elucidativo: Demonstra que se trata de um pessoal que não tem um projeto, não sabem o que defendem e que o que querem mesmo é fazer baderna. Nada mais que isso. Uma prova disso é a queima da bandeira da nação, uma ação sem a menor necessidade, significado ou importância.



Carro da polícia depredado: Quem vai pagar o conserto?


Encafuados dentro do prédio da FFLCH, eles reivindicaram: 

“Seguiremos ocupados até que o convênio (USP-PM) seja revogado pela reitoria, proibindo a entrada da PM no campus e em qualquer circunstância, bem como a garantia de autonomia nos espaços estudantis, como o Núcleo de Consciência Negra, Moradia Retomada, Canil da ECA, entre outros. Continuaremos aqui até que se retirem todos os processos criminais e administrativos contra os estudantes, professores e funcionários”

Falando sinceramente? Eu ri. Eu ri muito. É tão trágico que chega a ser cômico. O que vemos aqui é uma dúzia de vagabundos se achando no direito de decidir por uma comunidade de 80.000 pessoas. Sim, são vagabundos! Se não fossem estariam estudando ou trabalhando. Interromper um cronograma de aulas por causa de maconha? Façam-me o favor de me poupar. Sou a favor de mobilizações, passeatas ou greves, desde que tenham um programa substancial e reivindicações plausíveis. Esses "ervo-afetivos" não sabem nem pelo que lutam. Protestam contra tudo e não protestam contra nada. Pior que isso: excedem os limites do bom senso. Quem deu a eles o direito legal de optarem e decidirem pela falta de segurança? Querem fumar sua maconha? Vão fumar em casa! Universidade é lugar de estudar, coisa que pelo visto não andam fazendo muito. Pior ainda: Se acham no direito de exigir que TODOS os processos criminais e administrativos sejam retirados! Duvido que eles conheçam todos os processos de uma universidade do porte da USP. Quer dizer, o cara está sendo processado por desvio de verba pública, mas deve ser anistiado. Um professor está sendo processado por atitudes antiéticas, mas deve ser perdoado. Um aluno está sendo  processado por plágio, depredação do patrimônio ou agressão, mas deve ser esquecido. Em outras palavras: estão praticamente defendendo a anarquia dentro do campus da universidade mais prestigiada do Brasil. O que pensar de estudantes da área de humanas (o que é pior) que defendem a falta de segurança e a falta de justiça? O que pensar de estudantes tão na contramão do bom senso?


Me entristece ver no que os estudantes se tornaram. Tenho saudades do tempo em que os universitários sabiam ler, escrever, e tinham consciência política e social. Os estudantes, que outrora posicionaram-se contra o Estado Novo ditatorial de Vargas, contra o período de ditadura militar, pelo impeachment de Collor, hoje lutam pelo direito de fumar baseado. É doloroso pensar nos feitos tão importantes que os estudantes já fizeram na história deste país no sentido de oferecer resistência contra a corrupção, contra a supressão da liberdade de expressão, contra o mandonismo e o abuso de poder e ver que hoje mal conseguem se organizar, criar um bom programa e fazer o que Olga Benário se orgulhava de ter feito: Lutar pelo bom, pelo justo e pelo melhor deste mundo. Ao invés de preocupação com coisas importantes da coletividade, gritam, esbravejam e apedrejam por interesses próprios e/ou sem sentido ou relevância. 


Para finalizar, proponho uma análise de imagens. Observem: 





A primeira é uma imagem é de estudantes protestando contra a censura no período da ditadura militar, a segunda mostra estudantes exigindo que o corrupto Fernando Collor de Melo deixasse a Presidência da República. 


Agora observe as duas imagens de estudantes "ervo-afetivos" na USP:





Sabe o que as diferencia? Vergonha na cara. A primeira imagem expressa estudantes conscientes da importância da sua atuação dentro da sociedade, orgulhosos de estarem ali naquele momento fazendo aquilo que consideravam o correto e contribuindo para a história da nação, mesmo que isso lhes custe a vida. É gente que não tem medo de morrer pelo que acredita. Os personagens das imagens posteriores, que a gente não sabe se são de estudantes, terroristas ou bandidos, tem a intenção de se esconder por medo ou por vergonha. Já dizia o ditado popular que uma imagem vale mais do que mil palavras, não é?

No fim das contas, o que eu acho de toda essa história é que gente que tem sonhos, princípios e ideais mas tem medo de mostrar a cara, simplesmente não merece a minha confiança e nem o meu respeito. 
Postado por Roney Torres às 22:00 7 comentários Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook
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