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terça-feira, 26 de junho de 2012

Nossa vergonha em tinta e papel


Corre velozmente, como tudo que cai na internet, a imagem digitalizada de um bilhete enviado por uma professora da cidade de Sumaré, interior de São Paulo, aos pais de um garoto que todos nós vulgarmente classificaríamos com um "encapetado". No bilhete, a professora sugere aos pais do menino que desconsiderem as indicações de "psicólogos fajutos" que mandam que a educação fique apenas na esfera do diálogo e  que façam uso de cintadas e varadas para evitar que o estudante entre em encrencas. 

Segundo os pais do aluno, o menino é vítima de bullying por parte dos colegas porque a professora diz na frente da turma inteira que ele tem problema de cabeça, que tem doença mental, que faz tratamento e que nunca será ninguém na vida. 

Quem é o tal aluno "encapetado"? É um estudante de 12 anos que já passou por diversos profissionais por causa do seu problema. Ao que consta, o menino, que está em tratamento com uma psicóloga, sofre de um mal muito recorrente nos dias hoje: déficit de aprendizagem. Para os menos familiarizados com os novos termos criados pela psicologia, digamos que alunos outrora considerados como encapetados hoje são chamados de portadores de transtornos de déficits que estão ligados à hiperatividade, impulsividade, desatenção e problemas de aprendizagem, como a dislexia. O aluno considerado burrinho ontem, hoje é disléxico e tem déficit de atenção e o aluno capeta é hiperativo e impulsivo, e por aí vai. Notem que estou falando de maneira rasa, sem aprofundamento nos termos, porque não é essa a minha intenção aqui. 

A minha primeira reação ao ler ao bilhete foi pensar: "Que mulher burra! Ela mandou por escrito, produziu uma prova contra si mesma!". Após analisar mais friamente, pensei numa outra possibilidade, a de que a burrice era, na verdade, obra do desespero. Eu penso que para uma professora mandar um bilhete desses para o pai de  um aluno, ela deve estar totalmente desesperada. Não foi por maldade. O bilhete, em minha opinião, é um pedido de ajuda. A professora está dizendo com todas as letras: "Eu não dou mais conta de lidar com o problema". É uma forma torta, talvez tosca, mas foi a maneira que ela encontrou.

A minha segunda reação foi verificar que me chocou muito mais a quantidade de erros relacionados à escrita do bilhete do que o conteúdo em si. De qualquer maneira, dou um desconto porque imagino que ela devia estar alterada quando escreveu o bilhete e talvez o nervosismo tenha feito com que não percebesse erros na formulação de uma das frases ou na concordância. Levemos em conta que ela é professora de português e, em momentos de tranquilidade, erros tão crassos não passariam desapercebidos. 


Não vou perder tempo aqui discutindo se os pais devem ou não fazer uso da força física na educação dos filhos porque a minha opinião já foi expressa em vários outros posts aqui. Eu acho que os pais podem e devem bater nos filhos, seja como medida punitiva, preventiva ou coercitiva. Chamo, todavia, atenção para o fato de que devem ser observadas a finalidade e intensidade. Sou totalmente contra bater gratuitamente e  sem critérios, logo, não estou defendendo espancamentos. 

Vamos ao que realmente interessa: uma análise da ação da professora. Talvez a professora seja realmente o que muita gente pensa sobre ela: incompetente, frustrada, fria... mas também pode não ser. E não é um bilhete escrito em um momento de ira que irá determinar toda a sua carreira. Não há reclamações contra ela antes do ocorrido, o que me leva a crer que ela não deve ser tão incompetente assim. Tentei descobrir a sua idade, mas não consegui. Ela pode ser uma senhora já bastante cansada de anos de magistério, mas pode também ser uma moça de vinte e poucos anos ainda amargando os anos da inexperiência. Seja ela nova ou velha, uma coisa é certa: NÃO TEMOS FORMAÇÃO para lidar com tal tipo de transtorno. Eu digo "temos" porque me incluo dentro de tal estatística já que também sou professor. Em nossos cursos de licenciatura, temos disciplinas como Didática, Metodologia ou Estágio Supervisionado que nos ensinam a dar aulas, a usar recursos, a fazer aulas mais dinâmicas... Mas, para quem? Para alunos NORMAIS, ou, pelo menos, ditos normais. Somos ensinados a ensinar para alunos sem problemas, sem traumas, sem transtornos, que adoram estudar e que, via de regra, amam livros e tem sede de conhecimento. Isso é muito, muito, muito diferente do que se é encontrado nas salas de aulas, de escolas públicas e privadas, de norte a sul do Brasil. 

Querem saber de uma grande verdade? Ei-la: Professor virou saco de pancadas do mundo. Se você entrou aqui achando que eu iria manifestar o meu repúdio a tal atitude tão hedionda em relação ao coitadinho do aluno, talvez se frustre. Eu não serei, em hipótese alguma, mais um socar esse saco de pancadas que a categoria de professores se tornou. A professora já foi afastada do cargo e já está sendo tratada como uma bandida. Não estou defendendo e muito endossando a sua atitude. Ela errou e errou feio, mas não serei mais um hipócrita a fechar os olhos para tal situação e a tratá-la como uma bruxa malvada. Para mim, ela é tão vítima quanto o próprio aluno. 

No pedaço de papel escrito a tinta (e talvez com lágrimas) está expresso o pedido de socorro e ao mesmo tempo um "Basta!" que é de toda uma classe que tem sido oprimida há décadas por um sistema mesquinho que nos cobra cada vez mais e nos dá cada vez menos.

Um advogado pode escolher quem quer como cliente. Ele pode escolher se quer defender ou não um acusado de um crime. Um professor, ao contrário, tem que ser professor de todo mundo que lhe colocam nas mãos. A medicina cada vez mais tem se subdividido em categorias e especialidades. Um cardiologista estuda sobre o coração e se dedica a resolver problemas relacionados ao coração. Fígado, baço, pulmões ou rins não lhe interessam. O professor, ao contrário, tem que estudar sobre tudo e lidar com todos os problemas: dislexia, falta de educação, déficit de aprendizagem, déficit de atenção, traumas, etc. Se você for a um arquiteto e lhe pedir para fazer o projeto de uma casa com 2 quartos ele fará e cobrará um preço. Se você for ao mesmo arquiteto e lhe pedir para desenhar uma casa com 4 quartos, uma escada, uma piscina e uma sacada, ele cobrará outro preço. TODOS os profissionais levam em consideração o nível de dificuldade ao colocar o preço de um serviço. Até uma faxineira cobra preços diferenciados. Se a casa for pequena é um preço, se for grande, ela cobra mais caro. O professor é o único profissional que tem que dar conta de todos os alunos por um único valor. Quanto vocês acham que a professora recebe a mais para cuidar de um aluno com um problema tão complexo como é o déficit de aprendizagem? Eu respondo: NEM UM CENTAVO! São exigidos uma atenção e um acompanhamento maior para esses alunos, mas ninguém quer pagar mais por isso. 

Criticar a professora por não dar conta do problema? NUNCA!

Ela poderia se atualizar, procurar conhecer mais a respeito do déficit de aprendizado? Poderia sim, claro. Mas quando? Professor no Brasil tem que trabalhar dois ou três turnos se quiser viver com o mínimo de dignidade. Some-se a tudo isso a dificuldade de lidar com salas de aula lotadas, pais omissos e permissivos, um trilhão de programações escolares por ano, relatórios, etc. Se ela for aprender mais sobre o transtorno, quando preparará suas aulas? Que horas ela irá se dedicar à pesquisa acadêmica? Professor no Brasil só se  preocupa com extensão pois não tem tempo de se preocupar também com  a pesquisa. Somos apenas reprodutores, poucos de nós produzem o conhecimento. Ela poderia fazer isso nos míseros 20 minutos de intervalo que ela tem para comer, beber ou ir ao banheiro? Poderia! Mas ela não tem como fazê-lo porque já não tem mais direito ao descanso. O professor não pode descansar porque ele que tem que atuar como vigia para evitar que os alunos, que não são educados corretamente pelos pais em casa, 'destruam' a escola. O tempo que ela teria para sentar e descansar as pernas e a voz, será usado no meio do pátio correndo e gritando para lá e para cá atrás de crianças. 

É muito fácil dizer que é necessário investir em inclusão. Vamos colocar na mesma sala aleijados, cegos, autistas, portadores de síndrome de down, surdos, mudos, portadores de TDAH... quem vai cuidar é o professor mesmo, né? É ele que vai ter que se desdobrar em 10 para dar conta de todo mundo, é ele que vai se estressar, é que ele que vai perder os cabelos... E se não der certo, como não deu no caso da professora de Sumaré? A gente faz o que vem sendo feito há anos: coloca a culpa no professor e o apedreja. Outra coisa: eu ainda não estou convencido de que a inclusão de todos os seres humanos dentro de uma mesma sala de aula seja realmente melhor para quem é diferente. Não consigo perceber como, em são consciência, alguém pode achar que uma sala com mais de 30 alunos seja ambiente adequado para uma criança que sofre com um problema como o transtorno de atenção.

Em minha ótica, o bilhete escrito pela professora desesperada é muito mais que um bilhete: é um atestado. São linhas escritas em tinta e papel que atestam a ineficiência de um sistema de ensino que se quer moderno, democrático e eficiente mas que demonstra cada dia mais que não passa de enrolação, descaso e opressão.

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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cada macaco no seu galho.

Ontem tive o desprazer de ler coisas tão desagradáveis numa rede social que me deixaram com um gosto de fel na boca. Antes de relatar o acontecido, quero deixar claro que essa postagem não tem nenhuma intenção de denegrir, descredenciar ou manchar a índole, o trabalho ou a competência de ninguém. Deixo claro que a pessoa de quem tratarei aqui é um professor da área de Direito em mais de uma instituição de ensino superior, um excelente profissional, com excelentes referências, bem preparado (até onde tenho conhecimento, tem nível de mestrado), mas nem por isso está isento de errar e, em minha opinião, perdeu  ótimas oportunidades de ficar calado.

Vejamos: o supracitado indivíduo postou numa rede social  um comentário sobre o esporte popularmente conhecido como MMA. Em seu comentário ele disse que o MMA é um retrocesso, um incentivo à violência, uma invasão do espaço dos "verdadeiros" esportes e que se trata apenas de um modismo midiático. São tantas falácias dentro de tão curto espaço que chega a ser vergonhoso. 

Provavelmente o "nobre colega" (como os advogados costumam tratar-se dentro dos tribunais) desconhece a máxima popular que diz que cada macaco deve manter-se no seu galho. Se ele não é da área educação física, não está credenciado a dizer qual esporte é verdadeiro e qual é falso. Sua formação em Direito não lhe confere direitos de conceituar o que é esporte, mesmo porquê esse terreno conceitual é muito movediço e pantanoso. Até mesmo os profissionais formados em áreas diretamente ligadas ao esporte têm dificuldade em estabelecer conceitos e demarcar os limites do que seja esporte, jogo e luta, haja vista que em muitos casos eles estão extremamente imbricados.

Provavelmente o professor desconhece algumas coisas básicas, como o histórico do MMA. O termo MMA significa, a grosso modo e em sua forma aportuguesada, artes marciais mistas. É uma mistura de técnicas de vários tipos de artes marciais e remonta aos jogos olímpicos gregos ainda no ano de 648 d.C. Se é uma moda, portanto, é uma moda que já existe há bastante tempo. Ao contrário do que ele pensa, não é o esporte que está ficando popular por causa da mídia, é a mídia que está abrindo espaço porque o esporte já é do gosto popular. Ora, não sejamos tolos, desde a antiguidade a humanidade já tem uma queda por sangue. O próprio Sigmund Freud em seus estudos debruçou-se sobre o tema da violência e percebeu que, ao lado da sexualidade, ela tem fortíssima propagação entre os impulsos humanos. Se existe há tanto tempo e é uma combinação de outras artes marciais, o MMA não pode ser considerado um retrocesso. No máximo, ele seria uma continuação do retrocesso (se fosse o caso). E mais: se o MMA é uma selvageria, devemos colocar no mesmo pacote o jiu-jitsu, o muai-thay e todas as outras lutas. Se levarmos em conta que só ocorre violência quando há um agressor e um agredido, não podemos considerar o MMA como uma violência, logo, também não é selvageria. Basta entender o mínimo sobre o esporte para saber que os competidores são conscientes do perigo, preparados fisicamente, estão em condições de igualdade e são beneficiados e protegidos por regras que regem o esporte. Existe um regulamento! MMA não é uma bagunça e eles não se matam!

Ao citar a política do pão e circo e comparar os lutadores de MMA aos gladiadores da Roma Antiga, ele entra em um outro território que não é o dele, é dos historiadores. Entrando nessa seara que não domina, ele comete um grave anacronismo (tentativa de aplicar o costume de uma época a outra): diz que os gladiadores estão retornando com força total. Reparem: gladiadores e lutadores de MMA não são a mesma coisa. Os gladiadores eram em sua maioria escravos e não tinham a opção de não lutar. Os lutadores de MMA o fazem por opção e não por imposição. Também temos que levar em conta que gladiadores perdiam suas vidas em arenas por estarem em um confronto sem regras e onde a morte era bem vinda. O MMA tem inúmeras regras. E mais ainda: o fator que eternizou a luta de gladiadores como peça  fundamental da política do pão e circo não foi a violência cometida e sim a espetacularização. Não precisa ser violento para ser pão e circo. Qualquer coisa pode ser parte de uma política de pão e circo, qualquer espetáculo, qualquer coisa que desvie a atenção do povo dos problemas políticos. Olhando por tal ótica, o futebol se enquadra perfeitamente. 

A acusação de que o esporte incita à violência é a mais tola de todas. Se formos dizer que as artes marciais incentivam a violência, devemos considerar também que a Fórmula 1, o motocross e outras corridas incentivam o excesso de velocidade. É bem elementar. Acho engraçado que nunca chegou ao meu conhecimento  NENHUM caso de pancadaria e quebra-quebra depois das lutas do MMA ou UFC, já em esportes "pacíficos" e "civilizados", como o futebol, a violência dos torcedores é recorrente. 

Infelizmente, isso foi só o começo. Posteriormente, ele disse que o MMA era o domínio da irracionalidade e que tinha a sensação de que a massa encefálica dos lutadores era afetada por tanta selvageria e que eles não deviam possuir discursos racionais. Conseguiram entender a gravidade do discurso? Insinuar que um lutador seja incapaz de discursos racionais é cometer a leviandade de generalizar e propagar um preconceito. É uma insinuação (velada, obviamente) de que todo lutador é burro. Estereotipação é o nome do que ele está fazendo e inscreve-se no mesmo discurso preconceituoso que diz que toda loura é burra, que todo pobre é ladrão, que todo negro é favelado, que todo gay é promíscuo, que toda mulher que gosta de futebol é sapatão e que todo homem tatuado é um malandro.

Após receber uma chuva de comentários discordantes, ele chegou a uma conclusão: nos dividimos em dois grupos, os que gostam da selvageria e os que preferem a racionalidade. Que pensamento maniqueísta mais tosco! Quer dizer que a gente só pode ser preto ou branco, bom ou mau, selvagem ou racional? Não somos muito mais complexos que isso? Quer dizer que se eu gostar de assistir uma luta eu estou condenado a viver na irracionalidade? Penso em quão tola uma pessoa é ao pensar que mesmo a selvageria não pode se inscrever no terreno da racionalidade. Os europeus cometeram a selvageria de exterminar tribos indígenas inteiras, mas nem por isso eles foram irracionais. A selvageria foi cometida em nome de uma política de dominação que lhe era lucrativa, logo, racional. Nem todo mundo que comete selvageria é irracional.

Não podendo me calar diante de tantos equívocos, eu disse que ele estava sendo generalista e preconceituoso. Ele, em contrapartida, me deu uma "dica", a de que eu deveria tomar cuidado com as minhas conclusões, e não deveria falar de quem não conhecia. Será que ele conhece todos os lutadores de MMA para estar tendo a sensação de que eles não tem discursos racionais? 

O fato é que as pessoas precisam entender que quando elas criam um tópico depreciativo sobre alguma coisa baseando-se em "sensações" que elas tem, estão dando aos outros o direito de também julgá-las baseando-se em "sensações" tidas sobre elas. Somamos a isso a intolerância: ele pode ter sensação de que lutadores de MMA são seres desprovidos de racionalidade mas eu não posso ter a sensação de que ele está sendo preconceituoso e generalista. Bem maduro, não? O protagonista da nossa história deveria também conhecer outra máxima popular, a que diz que quem fala o quer, ouve o que não quer. E mais: para a gente chegar numa rede social e criticar alguma coisa a gente tem que ter o mínimo de informação a respeito dela. Até para falar mal, é preciso conhecer. A relevância do comentário também poderia ser observada. Já dizem os orientais: "Quando fores falar, cuida para que as suas palavras sejam melhores do que o silêncio". No português claro: se for para falar merda, fica calado.


A título de informação para o nobre colega e demais interessados, as lutas são trabalhadas pelos profissionais de educação física até mesmo na escola por ser elemento da cultura corporal e, ao contrário de incitar à violência, tem outras finalidades: despertar a consciência corporal, aprimorar as habilidades, melhorar a postura e o equilíbrio além de aumentar a força, a agilidade, o reflexo e a capacidade de concentração. As artes marciais possuem inclusive, direções filosóficas e são reconhecidas como esporte por fomentar o método da autodefesa, exercício de condicionamento físico e desenvolvimento espiritual. Sendo assim, a despeito do que o nosso advogado ache ou deixe da achar, as artes marciais são esportes legitimados por quem é de direito, e, portanto consideradas como esporte tão verdadeiro como o futebol, o tênis, o vôlei ou a Fórmula 01 que já são (muito mais que o MMA) explorados pela mídia há décadas e ninguém fala nada.

No fim das contas, ficou o aprendizado: aprendi que o acúmulo de funções e títulos acadêmicos não são  sinônimo de gente tolerante, consciente, esclarecida e que ainda estamos longe, muito longe, de conseguirmos vencer os preconceitos e nos libertarmos da maldita mania de depreciar o outro para nos sentirmos melhores, mais racionais e mais civilizados. 
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domingo, 22 de abril de 2012

Amanhecer

Abriu os olhos. Rolou mais uma vez pela cama. Naquela manhã tão especial, a alma havia sido aberta junto com seus olhos. Quantas decepções seriam necessárias para se criar uma desilusão? Quantas mentiras são necessárias para o esvaziamento de um coração? Quanta dor e quanto descaso são necessários para provocar uma libertação? Quanta desumanidade é necessária para fazer secar o afeto de alguém?
Fechou os olhos. Rolou mais uma vez na cama. Naquele momento, com os olhos cerrados, viu seus últimos dias desfilarem diante de si. Buscou explicações, cavou enlouquecidamente atrás de argumentos, tentou cravar suas unhas nos galhos mais fortes da árvore da compreensão, mas já era tarde demais: já havia caído. Havia caído e se arrebentado no chão de si mesma. Caiu em si. Pensou no amor. Tentou se encaixar num mundo que não era mais aquele que havia escolhido para si. 
Rememorou. Reverberou. Descobriu que sem querer e sem perceber foi deixando de ser. Não era mais a pessoa de alguns meses atrás. Descobriu também que a pessoa com quem pensava dividir a cama e a vida já havia partido. Ou será que tinha realmente chegado algum dia? Engoliu secamente uma saliva que era tão escassa quanto aquela eternidade que sonhara para si. Pensou mais uma vez no amor. Pediu respostas e elas não vieram. Não haviam mais medidas paliativas a serem tomadas. Naquele dia, após dois ou três dias de um abandono presente, viu o quanto estava só. 
Reabriu os olhos. Alguma decisão precisava ser tomada. Não havia mais a menor chance de permanecer naquela teia. Pensou no outro e pensou em si. Procurou culpados. Procurou inocentes. Não os achou. O que viu com os olhos da alma, que se arregalavam naquele momento, foram dois seres dentro de um turbilhão. Em meio a tentativas de sobrevivência, apunhalavam-se.  
Levantou-se.Olhou-se no espelho e ele, com implacável sinceridade, mostrou-lhe que a dor e o amor são tão próximas que às vezes se misturam. Pensou no outro. Viu que era alguém que não se importava. Nem a sua dor, nem a sua doença, nem a sua alegria lhe interessavam. Pensou nas palavras de Renato Russo: tem gente que não sabe amar. Haveria como culpá-lo? Naquele momento sua memória havia se transformado em cinzas. Lembranças de uma noite de amor num hotel, de um passeio pela praia, de um encontro no meio de uma festa de universidade, de sussurros num quarto... simplesmente haviam se tornado pó. Não estava mais disposta a ver a sua força e a sua determinação serem confundidos com falta de sentimentos. Cansou de ser tratada como pedra. 
Percebeu que, ao invés de estar num leito de amores, estava num ringue e, se não encontrava em si mesma a capacidade de dar um ponto final àquela situação, daria ao outro os motivos para fazê-lo. Mentiu. Ridicularizou. Zombou. Naquele momento, amaldiçoou a sua família até a terceira geração não poupando nem o cachorro, nem a casa, nem o papagaio. Rugiu coisas que certamente lhe doeram mais dizer do que ao outro ouvir. Era necessário. Não poderia mais viver naquela situação. Se o preço para ser amada era livrar-se daquele a quem amava, ela estava disposta a pagá-lo. Não podia mais conceber a ideia de viver num relacionamento onde mais se cortavam do que se afagavam. Estavam sendo tristes acompanhados e ser triste acompanhado é mais doído do que ser triste sozinho. 
Saiu do canto da vida. Decidiu novamente caminhar, dobrar esquinas, se enveredar por becos tortuosos. Decidiu que preferia a sensação de caminhar sozinha do que a de estar abandonada quando mais se precisava. Sua companhia agora seria o tempo e a liberdade o seu refúgio. Esperaria por outros dias, outros tempos, outros motivos, outros amores e, quem sabe, pelo seu amor de volta. 
Sendo assim, foi. Na mochila, a vontade de viver. Nos bolsos, motivos para ser feliz. No coração, esperança. Na mente, a certeza de que ser feliz é uma obrigação.
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sábado, 3 de março de 2012

A vida da Gente


Recompondo-me do choro, termino de assistir à reapresentação do último capítulo da novela A vida da Gente. O “Gente”, grafado com letra maiúscula, é proposital. Não me recordo, por mais que me esforce, de nenhuma novela anterior ou qualquer outro programa da TV brasileira que tenha retratado o ser humano de uma maneira tão “Gente”. Sim, Gente com G maiúsculo, carregado de simbologia, de significados e de grandeza. Gente que acerta e que erra. Gente que vibra, que mente, que sonha, que se desespera, que ama, que odeia e que sofre. Gente que chora.

Minhas lágrimas não foram gratuitas. Nunca são. Se tem uma coisa que eu costumo economizar na vida, são as lágrimas. Não choro, em hipótese alguma, por pouca coisa. Não sou desses que curtem fossa. Sou dos que se recusam a sofrer por antecedência e que não fingem sentir o que não sentem, mas quando é para chorar, eu choro mesmo. Choro com dor no corpo. Choro com cada célula do meu efêmero organismo e confesso que poucas coisas me fazem tão feliz e me trazem tanto orgulho como conjugar em minha própria carne o verbo chorar. Ao chorar, eu me reconheço e me faço humano. Ao chorar eu abaixo a guarda e pratico o ato de me despir das armaduras que a vida me impõe. Além da dor, só a arte é capaz de me fazer chorar. E eu chorei com a A vida da Gente porque ela também é a minha vida.

A novela citada se mostrou como um diferencial desde o seu início. Recordo-me de quando vi a sua primeira propaganda. Sem nem saber direito do que trataria a trama, falei para o amigo que estava ao meu lado: “Essa novela vai ser excelente, ou, pelo menos, vai ser muito diferente”. Não me enganei em nenhum dos dois aspectos. A vida da Gente foi bem diferente, e, também por isso, foi excelente.

O que fez dela uma novela tão diferente? Tudo! Uma fotografia belíssima, diálogos profundos, um texto primoroso, uma trilha sonora criteriosa, dores levadas ao extremo, ausência de estereótipos e clichês, etc. A novela fugiu completamente do já tão batido script das outras produções globais: a guerra de mocinhos contra vilões, gente brigando pela presidência de uma empresa, os sotaques estranhos, homossexuais cômicos e caricatos e jargões do tipo “né brinquedo não” e “Tô rosa chiclete”. O último capítulo não teve o “Quem matou fulano”, nenhuma reviravolta imprevista e nem os vilões se dando mal no final, quase sempre morrendo ou enlouquecendo. Convenhamos, A vida da Gente nem parece ter sido produzida e veiculada pela Rede Globo de Televisão.

E a trilha sonora? A abertura trouxe, através da bela voz de Maria Gadú, a Oração ao tempo de Caetano Veloso. Sem dúvida, uma das melhores letras no nosso baiano. Além dela, tivemos Milton Nascimento, Zizi Possi, Rita Lee, Legião Urbana, Chico Buarque, Elba Ramalho e Cássia Eller. É uma seleção de artistas que dispensa comentários. Além deles, eu ainda destaco “Recomeçar”, interpretada por Tânia Mara (a melhor música da trilha) e Atrás da Porta, famosa pela interpretação de Elis Regina, magistralmente cantada agora por Marina Elali, que, em minha opinião, tem a voz bem melhor que a de Elis.

A ausência de um único personagem protagonizando a trama foi, certamente, o maior de todos os seus méritos. Como afirmou o diretor Jayme Monjardim (e eu concordo em gênero, número e grau), o protagonista de A vida da Gente foi o texto. Uma novela que em uma única cena cita Heráclito de Éfeso e João Guimarães Rosa e com eles constrói uma discussão sobre a fluidez da vida, não é uma produção qualquer. Os diálogos, colocados na boca de excelentes atores, ganharam vida e discutiram temas de importância máxima na vida humana, como as relações familiares. Texto extenso. Doloroso. Duro. O texto da novela, sempre carregado de sabedoria, me deixou ao final de cada capítulo com a sensação de ter tomado um soco no estômago.


Ao citar A vida da Gente como a minha vida, vejo-me correndo desesperadamente atrás do tempo perdido e tentando devorar a vida como Ana Fonseca, me vejo na imaturidade de Nanda, na orfandade de Tiago e de Francisco, na busca por uma maturidade e uma inteligência emocional como a de Manuela, na dureza de Eva, na frieza de Vitória, na vontade de vencer e provar que pode ir além de Sofia, no mundo onírico de Marcos, nas dúvidas de Rodrigo, na insegurança do Sr. Wilson, no trocar de pernas de Laudelino...

Eu também tenho a minha novela. Eu também sou um ator. A vida da Gente, também é a minha vida. Neste set de filmagens chamado Vida eu represento a minha história num palco chamado Tempo. Danço de acordo com os seus ritmos, espero de acordo com os seus caprichos, vejo o seu esculpir na minha carne as suas marcas. Sofro, dou gargalhadas, brigo, luto... tudo no mesmo palco.

Sobre a insistente alegação de alguns de que a novela não tenha sido tão boa porque não alcançou as mesmas pontuações no IBOPE que as suas antecessoras, acho descabido. Querer que A vida da Gente agrade ao grande público tanto quanto Araguaia ou Cordel Encantado é a mesma coisa que querer que Khaled Housseini agrade tanto quanto Paulo Coelho.  Khaled explora e expõe a dor mais aguda. Seus livros são densos, quase sufocantes. Quem leu O caçador de pipas sabe bem do que estou falando. Só apela para a questão de Ibope quem vê A vida da Gente apenas como entretenimento, coisa que a novela nunca se propôs a ser. Quem reclama da falta de humor, que vá ver a Mãe Iara (Aquele beijo), o Crô (Fina Estampa), o Tonho da Lua (Mulheres de areia) nos outros horários. Eu prefiro pensar que A vida da Gente seja como a obra de Clarice Lispector: Ou toca, ou não toca. Requer sensibilidade e maturidade. O horário foi um problema: o horário das seis, hora em que adultos estão no trabalho ou saindo dele, não é indicado para uma novela tão densa. Adolescentes não assistiriam esse tipo de trama. O que eles gostam é de pataquadas, coisas que não se encontra no folhetim em questão. Esperar que este público imaturo conseguisse enxergar toda a sua beleza e a sua profundidade, é, pelo menos, tolo.

Dizer que aprendi seria um exagero. Muitas coisas eu já sabia, portanto, eu relembrei lições preciosas. Ao final de cada capítulo, ao final de cada uma das catarses às quais eu me submetia, me relembrava de que ninguém está 100% certo enquanto o outro está 100% errado. Ninguém é doce o tempo todo. Nem todos são capazes de mudanças radicais, nem todos são capazes de atos humanos, nem todos sabem o valor do amor, da família e do perdão.

O tempo recebeu da novela uma homenagem justíssima. A ele todos nós nos curvamos, por bem ou por mal. Enquanto ele faz o que sabe fazer de melhor – passar – a vida da gente continua. Os amores mudam, as prioridades mudam, prioridades se invertem, pessoas se afastam, pessoas se aproximam, sonhos são perseguidos, outros tantos abandonados, e a gente vive. Vive esperando. Vive buscando. Vive correndo atrás. A vida da Gente é um devir. Um eterno vir a ser...


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Marcadores: Televisão

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Estado babysitter


Ando meio revoltado com as práticas jurídicas utilizadas neste país. Corrigindo: meio, não! Ando muito revoltado com o que tem sido praticado no Brasil no que diz respeito à elaboração, manutenção e cumprimento das leis. Tenho me sentido alarmado ao ver como o Estado anda se portando atualmente. A notícia do expurgamento do dicionário Houaiss foi a gota d'água. Vejamos a notícia:

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia (MG) para tirar de circulação o dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do mercado. Segundo o MPF, a publicação contém expressões "pejorativas e preconceituosas", pratica racismo aos ciganos e não atendeu recomendações de alterar o texto, como fizeram outras duas editoras com seus dicionários.

"Ao se ler em um dicionário, por sinal extremamente bem conceituado, que a nomenclatura cigano significa aquele que trapaceia, velhaco, entre outras coisas do gênero, ainda que se deixe expresso que é uma linguagem pejorativa, ou que se trata de acepções carregadas de preconceito ou xenofobia, fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação", afirmou. "Trata-se de um dicionário. Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada", acrescentou o procurador.   Fonte: [http://migre.me/85DTR]

Cabe ao Ministério Público Federal (MPF): defender os direitos sociais e individuais (direito à vida, dignidade, liberdade, etc.) dos cidadãos, atuar sempre que uma questão envolver interesse público, fiscalizar o cumprimento das leis editadas no país e daquelas decorrentes de tratados internacionais assinados pelo Brasil, atuar como guardião da democracia, assegurando o respeito aos princípios e normas que garantem a participação popular. Não vejo, dentro destas atribuições supracitadas, nada que endosse uma atitude como a tomada em relação ao Houaiss. Penso que a decisão tomada pelo MPF deva ser considerada como censura, o que é intolerável. Quanto ao pronunciamento do procurador, devo chamar a atenção para o fato de que uma etnia deve ser respeitada por ser humana, não por força de lei alguma.

Minha mãe conta que quando era criança (e isso já tem mais ou menos meio século), seus pais a advertiam a tomar cuidado com os ciganos. Ela vivia na zona rural e diz que quando se sabia da notícia da chegada de um grupo de ciganos, toda a comunidade se punha em alerta. Desde aquela época já havia a fama de que os ciganos costumavam furtar. Ela se lembra bem de que 'coincidentemente' com a chegada dos ciganos ocorria o sumiço de ovos, galinhas e animais de pequeno porte em todas as fazendas da região. De igual modo, os feirantes também os temiam. Sempre que ciganos entravam nas feiras, mercadorias sumiam. Essa fama deles serem ladrões, espertalhões e coisas do gênero é muito antiga, sendo ela historicamente construída.

Não estou inteirado acerca das práticas socioculturais dos ciganos na atualidade, mas penso que a imagem que se faz deles, foi criada por eles mesmos e não é um dicionário que vai melhorá-la ou piorá-la. O uso que o povo faz da língua não é da competência do dicionarista. A fama de trapaceiros dos ciganos antecede ao Houaiss. Portanto, condenar um dicionário por dizer aquilo que todo mundo diz, é algo imbecil. Mais imbecil ainda é alguém acreditar que um dicionário seja ou possa ser politicamente correto. Mais ainda: se formos condenar o Houaiss iremos também ter que condenar um carteiro quando ele levar uma carta de conteúdo racista. Para mim, assim como para Túlio Vianna, escritor da área do Direito Penal, daria praticamente no mesmo. O Ministério Público quer nos livrar do preconceito praticando censura e atacando sintomas ao invés das causas. Que fique claro que eu repudio totalmente qualquer forma de preconceito contra quem quer que seja. Apenas acho que a alegação do MPF não cabe, mesmo porque o próprio dicionário avisa que se trata de expressões de ordem pejorativa.

No mesmo patamar de proteção criada pelo Estado foi sancionada uma lei que obriga todas as redes de fast food do Estado de São Paulo a divulgar aos consumidores as tabelas de informações nutricionais e de calorias dos alimentos servidos nos estabelecimentos. Que Estado MARAVILHOSO nós temos, hein? Não deu em vocês também um super orgulho de serem brasileiros? Vejam que fantástico: temos um governo que zela pela nossa saúde, pela nossa educação e que nos recomenda até onde devemos fazer xixi. Penso que a República Federativa de Brasil poderia ser chamada de República Babysitter do Brasil. Não temos um Estado, temos uma babysitter, uma babá.

É pertinente a pergunta: Estamos sendo vistos como bebês ou como retardados?

Que Estado é esse que nos quer "proteger" de tantos males tão inócuos? Sei ler, escrever e interpretar o que está escrito. Não preciso de um Estado que me queira "proteger" até do dicionário e das calorias dos alimentos. Não preciso de uma babá. Sobretudo, não preciso de tamanha hipocrisia. Não preciso de um Estado que finge estar preocupado comigo ou com quem quer que seja. Quem acha que estou exagerando, olhe para a situação da educação e da saúde neste país. A maioria absoluta das pessoas que realmente precisaria destes tipos de ações não tem escola para estudar, não foi ensinada a ler corretamente, não tem a cultura (no sentido de costume) de procurar o significado de verbetes no dicionário e não tem R$ 15,00 para bancar um sanduíche em fast foods. Aliás, o povo que anda passando fome não está preocupado em engordar, pelo contrário, está é precisando ganhar uns quilinhos mesmo.

Vivemos num país de gente sem educação, que não sabe sequer se portar dentro de um cinema ou de um teatro, que não respeita leis de trânsito, códigos de ética, que não tem a leitura como costume diário e o governo está preocupado com UM verbete de um dicionário muito bem conceituado. Segue mais um exemplo: a campanha empreendida na TV para que as pessoas não urinem em vias públicas. Pelo amor de Deus! Que país é esse onde é necessário solicitar em rede nacional que a população não urine na rua?

Se a maioria da população necessita desse tipo de intervenção é porque o Estado não cumpriu corretamente a lição de casa e agora fica querendo fazer remendos. Ele deve, ao invés de querer servir de muletas ou de babá para um povo que não sabe andar com as próprias pernas, dar a esse povo condições de ter autonomia para pensar e tomar as suas próprias decisões. Chega de ser um país que é órfão de cultura, pai da ignorância e herdeiro da alienação.

No mais, caríssimo Ministério Público Federal, temos injustiças sociais para sanar, crimes hediondos para punir, corruptos para prender, hospitais para construir, crianças para zelar, mendigos para tirar das ruas e alimentar e um povo que precisa aprender a ler o mundo, interpretá-lo e fazer as suas próprias escolhas.
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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Olha para nós!



A riqueza da Bíblia é inegável. Entra ano e sai ano e ela continua lá, servindo como fonte de inspiração para muitas pessoas. Apesar de não interpretá-la ao pé da letra, de não compreendê-la como 'A' palavra de Deus, mas como uma produção humana, eu reconheço a sua importância. Infelizmente o livro sagrado dos cristãos tem sido fartamente utilizado para fomentar o ódio, promover segregações, embasar preconceitos, monitorar e manipular vidas e legitimar todo tipo de pensamento em nome de Deus. Quando utilizada de maneira lúcida, contextualizada, responsável e sem pretensões de dogmatização, ela pode nos proporcionar interessantes reflexões.

Quero compartilhar com vocês um dos momentos interessantes do Novo Testamento. Não irei me ater a ficar discutindo se o milagre realmente aconteceu ou não. Utilizarei o texto bíblico apenas como ilustração, como fio condutor do meu texto. Quanto aos aspectos religiosos/sobrenaturais do relato, cada um acredite no que quiser.

O livro de Atos dos Apóstolos diz no capítulo 3 que Pedro e João, discípulos de Jesus, estavam subindo para o templo às três da tarde ao mesmo tempo em que um aleijado também era levado para lá. Todos os dias ele era colocado à porta do templo para mendigar e ao ver os discípulos, pediu uma esmola. A cena que se  desenvolve então, segundo o relato  bíblico, é a seguinte:

Pedro e João olharam bem para ele, e, então, Pedro disse: "Olhe para nós"! O homem olhou para eles com atenção, esperando receber alguma coisa. Disse Pedro: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isto lhe dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande." E o homem então foi curado de sua paralisia.

 De todos os sentidos, talvez a visão seja o mais explorado do século XXI. A quantidade de informações a que os nossos olhos são submetidos dia-a-dia é surpreendente. Tudo passa pelo campo do olhar. Dizer Olhe para nós em 2012 é praticamente uma redundância. Brinquei com um amigo recentemente dizendo que hoje existe uma câmera de vídeo em todos os lugares, até nos mais insólitos. Devemos sorrir, pois quase sempre estamos sendo filmados. Quantas são as pessoas que hoje se comportam como tortas em vitrines? Quantas são as pessoas que se oferecem a olhares vorazes e críticos em redes sociais de todo o planeta? No afã de ter visibilidade, as pessoas fazem coisas absurdas, desde gravar vídeos com imbecilidades sem medida até coisas bastante lamentáveis, como sentar em frente a uma filmadora e fazer um sanduíche usando a própria genitália. 

Querer visibilidade não é pecado. Querer ser admirado também não. Querer ser celebridade, depende. O problema é que as pessoas querem ser celebridade sem passarem pela fase de 'fazer' uma celebridade. Explico: para mim, celebridade é quem faz algo célebre, ou que pelo menos traga algum tipo de contribuição para esse mundo que está em estado de erosão, onde vemos dia-a-dia os valores éticos e morais se desintegrarem. Todo mundo quer ser visto, mas poucos se propõem a fazer algo importante. Querem apenas sucesso fácil. Em sua maioria, esses sucessos são desmerecidos, conseguidos à base da sorte, do dinheiro ou como um reflexo de uma sociedade embrutecida e emburrecida.

Já se tornou banal vermos (em sites de conteúdo duvidoso, obviamente) manchetes mostrando aquela subcelebridade que "sem querer" pagou calcinha ou peitinho. Já repararam em como o mar anda  assanhado, arrancando biquinis de moças "descuidadas"? Atualmente, vale tudo para alcançar visibilidade, desde mostrar o seio até simular uma briga com o irmão e ameaçar acabar com a dupla para chamar atenção da mídia. Tem gente que chega ao cúmulo de ligar para redação do site Ego para avisar que estará na praia tal e que vai beijar o namorado, como se isso fosse algo fenomenal.


Dizer "olha para mim" é fácil, difícil é ter algo substancial para mostrar/oferecer. Eu olho para você, mas o que você tem para oferecer? Pedro e João tinham o que oferecer. Aliás, eles tinham muito mais do que o aleijado poderia almejar. E ofereceram.

Quanta gente existe por aí com tão pouco para oferecer, mas querendo ser célebre. Quanta gente existe por aí com tanto para oferecer, mas fechando-se como uma concha por medo ou falta de oportunidades. O mercado fonográfico, por exemplo, anda tão saturado com tanto novos "talentos" que não  há espaço para talentos "excepcionais". Explico novamente: No Brasil, qualquer cantor que consiga alcançar uma notinha  mais alta já pode ser considerado como de talento excepcional já que, pelo visto, qualquer um nessas terras tupiniquins tem talento, de Ed Motta a Valeska Popozuda. Suspeito que as pessoas daqui pensam que emitir sons vocais ao som de algum instrumento musical é a mesma coisa que cantar. Num país onde uma grande revista estampa o cantor Michel Teló em sua capa e o descreve como representante da cultura popular não há lugar para um talento como o de André Leonno, ou qualquer ex-calouro do Raul Gil, todos quase sempre com talento e voz muito superiores aos nossos já consagrados artistas. E é isso que a gente vai vendo: gente querendo ostentar um tesouro que não tem e gente enterrando tesouros que poderiam ser compartilhados. Em ambos os casos, só tenho a lamentar.

Ao dizer "olha para nós", provavelmente Pedro exigiu do aleijado um exercício de autoestima. Estando ele sentado no chão, teria que erguer a cabeça poder visualizar os discípulos. Acostumado a viver como um trapo humano invisível e a ser ignorado, provavelmente o nosso personagem já estivesse desacostumado a olhar as pessoas nos olhos. Sua condição de aleijado e de mendigo provavelmente já havia lhe roubado a autoestima. Ao olhar para Pedro, ele pôde ver sua vida mudar. Penso que o importante da vida seja isso: poder contribuir. Penso que qualquer tipo de sucesso que não traga beleza, contemplação, amenização de dores ou mudanças substanciais não deve ser considerado como sucesso e, como tal, não é digno de holofotes. Fazer sucesso é bom, mas ser um diferencial na vida das pessoas é muito melhor.

Eu quero ser olhado, mas quero ser olhado com admiração. Quero ser olhado como uma caixa com conteúdo, não quero ser olhado como algo que até reluz, mas que não é ouro. Quando eu estiver com meus 90 anos quero, mais do tudo na vida, ouvir o meu nome e sentir orgulho dele. 
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sábado, 10 de dezembro de 2011

Nota de esclarecimento: a revolução dos "ervo-afetivos"

Devo esclarecer aos meus leitores que o post "Na contramão: a revolução dos ervo-afetivos" fora escrito ainda sob o calor dos primeiros acontecimentos no campus da USP. Ao escrevê-lo eu não tinha todas as informações sobre o que realmente se passava lá. Hoje eu sei que todo o movimento não foi apenas pelo direito de fumar maconha.

Passados tantos dias, já sabemos que o movimento é extremamente político (no sentido literal da palavra), com participação de partidos e tudo mais. Também sabemos que há uma luta contra abusos por parte da reitoria e contra processos administrativos. Sendo assim, esclareço que o post está desatualizado, mas mesmo assim creio que ainda há algumas considerações que valem a pena serem ponderadas.

Mudei a minha opinião sobre a presença da polícia no campus? Não.
Mudei a minha opinião sobre a forma errada pela qual os estudantes trataram os policiais, depredaram o espaço e apedrejaram as viaturas? Não.
Mudei a minha opinião sobre a falta de argumentos dos alunos? Não.

Hoje vejo que a luta poderia até ser digna, mas os meios usados não o são. Não podemos, enquanto sociedade, tratarmos policiais como inimigos. O dia que isso se tornar comum, estaremos perdidos.

Sobretudo, está mais do que na hora de parar com essa mimação. O que vemos todo dia agora é gente que se acha no direito de quebrar as coisas quando seus anseios não são prontamente atendidos.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Na contramão: A revolução dos "ervo-afetivos"


No dia 30 de março de 1968 foi realizada na Catedral da Sé, em São Paulo, uma missa em memória de Alexandre Vannucchi Leme, aluno da Universidade de São Paulo (USP), preso e morto pelos militares. Alexandre não foi o primeiro e nem o último estudante a pagar com a própria vida pelo desejo de viver num país melhor. Antes e depois desta data, estudantes foram perseguidos, torturados e mortos. Este primeiro parágrafo é apenas para deixar claro para quem está achando um absurdo o policiamento nas dependências da USP que a coisa já foi bem pior para os estudantes.


A USP está novamente no centro de discussões no país por causa do recolhimento de três estudantes do curso de Geografia apanhados portando maconha dentro do campus. A prisão dos três acabou gerando um confronto entre estudantes e policiais e a ocupação pelos alunos do prédio da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Existe um convênio assinado entre a entidade e a PM com a anuência de todas as unidades presentes no espaço, com representação de professores, funcionários e estudantes. A decisão pelo aumento do policiamento (que já existia) nas dependências da cidade universitária foi motivada pelo assassinato de um estudante no estacionamento da Faculdade de Economia e Administração. Vale lembrar que a decisão de assinar o convênio foi aprovada por ampla maioria, recebendo apenas um voto contra. De acordo com os dados, a presença mais ostensiva da polícia reduziu em 60% o número de furtos e roubos. Este segundo parágrafo é apenas para deixar claro que o policiamento na USP é necessário e consensual, não foi uma decisão arbitrária ou imposta pelo reitor da instituição. E mais: os próprios alunos do campus (os que tem bom senso) já demonstraram através de nota pública que são a favor da presença dos policiais no Campus. Ver http://migre.me/61ESX.



Não vou entrar na discussão sobre a legalização/descriminalização da maconha. Legalizada ou não, continua sendo droga. Não acredito que melhorará a questão do tráfico e continuará não fazendo bem. Droga para mim é pauta encerrada: sou terminantemente contra. Meus motivos são bem simples: O primeiro é que eu acho que ninguém precisa delas para viver bem, assim como não precisa de cigarro e de bebida. O segundo é que eu penso que uma droga como a maconha pode não ser tão nociva e degradante como o craque, mas dificilmente se encontra por aí usuários de craque que não tenham passado pela maconha. Ela é porta de entrada para a inserção no mundo das drogas mais pesadas. A pessoa começa fumando o seu baseado, logo ele se torna insuficiente e ela vai procurar um barato mais forte. O terceiro motivo é que maconha, assim como qualquer droga, alimenta o tráfico. Não chegarei, contudo, ao ponto de ser leviano e imaturo ao ponto de, como muita gente por aí, afirmar que o grande problema da USP são as drogas. 

O meu alvo neste texto não são as drogas, elas pouco me interessam. Quer usar? Use! É direito inalienável de qualquer um fazer o que quiser da sua própria vida, inclusive acabar com ela se lhe parecer viável. Meu foco neste texto, portanto, são os estudantes. São tantas coisas a serem ditas que nem sei por onde começar mas salta aos olhos o despreparo destes "ervo-afetivos" que se dizem estudantes. Reparem o cartaz abaixo: 


O que dizer de estudantes universitários que na hora da discussão com os policiais ostentavam livros de Karl Marx, mas que mal sabem escrever a palavra "trabalhadores"? Reparem que no cartaz foi escrito "Trabaliadores", sendo depois remendado na tentativa de transformar um "i" em um "h". Acreditem, tem coisas piores que o erro ortográfico neste cartaz. Em letras garrafais está escrito: "Os policiais não são 'trabaliadores', são o braço armado dos exploradores". Falácia. Expressão inverídica. Por mais que os nossos policiais sejam truculentos, despreparados e arrogantes, são trabalhadores. E pior ainda: são trabalhadores muito mal remunerados. Tem a banda podre, desonesta, abusiva e corrupta? Certamente, assim como existem professores, advogados, médicos e pastores na mesma condição. Se estão a serviço ou não de exploradores, já é outra questão. Penso também no seguinte: colaborar com os traficantes é mais digno do que servir de braço armado para os exploradores? É o povo que coloca os exploradores lá, não os policiais. Se querem resolver o problema da exploração e da desigualdade, tem que mexer em esferas mais elevadas. Retirar os policiais do campus ou dos morros não irá diminuir em nada essa suposta exploração, só facilitará a ação da bandidagem. Se estes estudantes estão realmente preocupados com a questão social, ao invés de ficarem amotinados ou destruindo o patrimônio que é público, bancado por pessoas de bem que pagam impostos, deveriam estar nas ruas bradando contra a a exploração. 


Em letras menores, podemos ler no cartaz: "Fora PM dos morros e favelas". Ora, tem alguém mais interessado em ver morros e favelas sem policiamento do que o pessoal do tráfico? Não seria igualmente interessante para os traficantes uma USP sem policiamento? Esta reivindicação me fez pensar seriamente sobre  a serviço de quem essa galera está e, para piorar, vem a outra frase: "Pelo fim do genocídio do povo negro". Alguém poderia me explicar o que esta pérola tem a ver com o contexto? Alguém poderia explicar para esses universitários que "genocídio" não se adequa à questão do negro no Brasil? A palavra  genocídio é utilizada quando uma etnia tenta exterminar a outra. Estamos falando de morte. Nunca houve no Brasil um projeto de brancos para exterminar os negros, mas para escravizá-los. Escravização, exploração e genocídio são coisas bastante diferentes. Qualquer historiador ou antropólogo mediano deveria saber disso.  


O cartaz, caros amigos, é extremamente elucidativo: Demonstra que se trata de um pessoal que não tem um projeto, não sabem o que defendem e que o que querem mesmo é fazer baderna. Nada mais que isso. Uma prova disso é a queima da bandeira da nação, uma ação sem a menor necessidade, significado ou importância.



Carro da polícia depredado: Quem vai pagar o conserto?


Encafuados dentro do prédio da FFLCH, eles reivindicaram: 

“Seguiremos ocupados até que o convênio (USP-PM) seja revogado pela reitoria, proibindo a entrada da PM no campus e em qualquer circunstância, bem como a garantia de autonomia nos espaços estudantis, como o Núcleo de Consciência Negra, Moradia Retomada, Canil da ECA, entre outros. Continuaremos aqui até que se retirem todos os processos criminais e administrativos contra os estudantes, professores e funcionários”

Falando sinceramente? Eu ri. Eu ri muito. É tão trágico que chega a ser cômico. O que vemos aqui é uma dúzia de vagabundos se achando no direito de decidir por uma comunidade de 80.000 pessoas. Sim, são vagabundos! Se não fossem estariam estudando ou trabalhando. Interromper um cronograma de aulas por causa de maconha? Façam-me o favor de me poupar. Sou a favor de mobilizações, passeatas ou greves, desde que tenham um programa substancial e reivindicações plausíveis. Esses "ervo-afetivos" não sabem nem pelo que lutam. Protestam contra tudo e não protestam contra nada. Pior que isso: excedem os limites do bom senso. Quem deu a eles o direito legal de optarem e decidirem pela falta de segurança? Querem fumar sua maconha? Vão fumar em casa! Universidade é lugar de estudar, coisa que pelo visto não andam fazendo muito. Pior ainda: Se acham no direito de exigir que TODOS os processos criminais e administrativos sejam retirados! Duvido que eles conheçam todos os processos de uma universidade do porte da USP. Quer dizer, o cara está sendo processado por desvio de verba pública, mas deve ser anistiado. Um professor está sendo processado por atitudes antiéticas, mas deve ser perdoado. Um aluno está sendo  processado por plágio, depredação do patrimônio ou agressão, mas deve ser esquecido. Em outras palavras: estão praticamente defendendo a anarquia dentro do campus da universidade mais prestigiada do Brasil. O que pensar de estudantes da área de humanas (o que é pior) que defendem a falta de segurança e a falta de justiça? O que pensar de estudantes tão na contramão do bom senso?


Me entristece ver no que os estudantes se tornaram. Tenho saudades do tempo em que os universitários sabiam ler, escrever, e tinham consciência política e social. Os estudantes, que outrora posicionaram-se contra o Estado Novo ditatorial de Vargas, contra o período de ditadura militar, pelo impeachment de Collor, hoje lutam pelo direito de fumar baseado. É doloroso pensar nos feitos tão importantes que os estudantes já fizeram na história deste país no sentido de oferecer resistência contra a corrupção, contra a supressão da liberdade de expressão, contra o mandonismo e o abuso de poder e ver que hoje mal conseguem se organizar, criar um bom programa e fazer o que Olga Benário se orgulhava de ter feito: Lutar pelo bom, pelo justo e pelo melhor deste mundo. Ao invés de preocupação com coisas importantes da coletividade, gritam, esbravejam e apedrejam por interesses próprios e/ou sem sentido ou relevância. 


Para finalizar, proponho uma análise de imagens. Observem: 





A primeira é uma imagem é de estudantes protestando contra a censura no período da ditadura militar, a segunda mostra estudantes exigindo que o corrupto Fernando Collor de Melo deixasse a Presidência da República. 


Agora observe as duas imagens de estudantes "ervo-afetivos" na USP:





Sabe o que as diferencia? Vergonha na cara. A primeira imagem expressa estudantes conscientes da importância da sua atuação dentro da sociedade, orgulhosos de estarem ali naquele momento fazendo aquilo que consideravam o correto e contribuindo para a história da nação, mesmo que isso lhes custe a vida. É gente que não tem medo de morrer pelo que acredita. Os personagens das imagens posteriores, que a gente não sabe se são de estudantes, terroristas ou bandidos, tem a intenção de se esconder por medo ou por vergonha. Já dizia o ditado popular que uma imagem vale mais do que mil palavras, não é?

No fim das contas, o que eu acho de toda essa história é que gente que tem sonhos, princípios e ideais mas tem medo de mostrar a cara, simplesmente não merece a minha confiança e nem o meu respeito. 
Postado por Roney Torres às 22:00 7 comentários Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Inimigo íntimo



A indústria cinematográfica, muito mais do que a teatral ou a televisiva, é a que mais brinca com a nossa imaginação. Através de efeitos especiais são criados monstros, sereias, deuses, vampiros, alienígenas e toda a sorte de seres extraordinários cuja criação seria onerosa demais para a televisão e para o teatro. No fim da semana passada eu revi o clássico Armageddon em casa e no cinema assisti dois filmes que me chamaram muito a atenção: "Planeta dos macacos - A origem" e "Cowboys e aliens".

Armageddon conta a história da luta para impedir que um asteroide do tamanho do estado americano do Texas colidisse com a Terra e extinguisse toda forma de vida aqui existente. Planeta dos macacos conta a história de um macaco chamado César que é exposto à ação de um vírus que aumenta o Q.I., a capacidade cognitiva e memória dos símios. O macaco aprende até a falar e lidera um movimento contra os testes com animais e contra a seu encarceramento. Ele e seus companheiros invadem circos e zoológicos libertando os de sua espécie e deixando as ruas da cidade lotadas de macacos fora de controle. Os seres humanos então se unem para combater a multidão de primatas que aterroriza a cidade. Cowboys e Aliens é mais um desses filmes em que a humanidade tem que lutar e salvar o planeta da  invasão de seres extraterrestres. Apesar de representar o mesmo enredo de sempre (Humanos X ET's), a nova produção hollywoodiana foge aos clichês tornando-o bem interessante. Ambientado no ano de 1873, os humanos não tem à sua disposição todo o arsenal moderno para lutar contra os invasores. O que nós vemos em Cowboys e aliens é uma luta desigual de alienígenas bem armados contra humanos armados com pistolas ultrapassadas, arcos e flechas. Tudo bem diferente de produções como Independence Day ou Guerra dos mundos.


Os três filmes não tem absolutamente nada em comum. Este texto, que achei por bem chamar de Inimigo íntimo,  saiu de um estalo, de um pensamento que, do nada, veio à minha mente. Ao sair da sala de cinema após assistir o último filme eu pensei comigo mesmo: "Nesta semana a humanidade teve que vencer três inimigos." 

Foi a partir deste pensamento solto, tão destituído de um propósito real que comecei a pensar nos inimigos que o cinema arrumou para a humanidade. Lutamos contra os dinossauros e múmias vindos de um passado muito distante, lutamos contra androides vindos de um suposto futuro próximo, lutamos contra a natureza criadora de tornados e vulcões enfurecidos, e principalmente contra alienígenas, zumbis, vampiros e lobisomens.


Pensando em tantos inimigos, vejo que a sétima arte tenta nos afastar dos nossos verdadeiros inimigos. Talvez seja por um mecanismo de fuga ou apenas por não querer mais reproduzir uma realidade que nos é tão dolorida. O nosso maior inimigo não vem do espaço, não vem do passado, não é um ser mitológico e muito menos é uma máquina ou um fenômeno da natureza. O nosso inimigo mora bem mais próximo e é bem mais íntimo. O maior inimigo da humanidade, é o próprio homem. A humanidade luta contra a humanidade. O homem é o único animal que não tem predador natural dentro da cadeia alimentar, mas já estamos dando um jeito nisso.

Em tempos imemoriais, lá na antiga Grécia, a inscrição na porta do Oráculo de Delfos já aconselhava: "Conhece-te a ti mesmo". A frase, além de inspirar o modo de viver do grande filósofo Sócrates, vem também inspirando muita gente. Temos procurado nos conhecer e temos também buscado conhecer o mundo que nos cerca. O conhecimento tem nos aberto muitas portas, mas ao mesmo tempo parece que tem nos tapado os olhos para muita coisa importante. É como um brilho muito forte que nos deixa cegos. Conhecemos os mínimos detalhes do funcionamento de um átomo, as formas de procriação dos moluscos, as taxas de calorias dos alimentos, fazemos bebês em laboratórios, e já somos até capazes de dizer se o universo está se expandindo ou se retraindo e em qual velocidade acontece. Mesmo assim, com tanto conhecimento e recursos ao nosso alcance, ainda fazemos besteiras. Entre todas as besteiras da humanidade, as maiores são acreditar que podemos nos dar bem às custas do outro e crer que o sofrimento do outro é um problema apenas dele. Damos um tiro no próprio pé ao achar que dá para viver sem nos interessarmos pelo outro ou pela posteridade. TODAS as ações da humanidade serão refletidas no nosso outro contemporâneo ou no outro de amanhã (que poderá ser nosso filho ou neto). Chama-se Lei da Semeadura: colher o que se plantou. Por ignorar essa lei tão implacável é que nos matamos aos poucos sem perceber. É óbvio que ao falar em morte, não estou falando de morte física. Ainda (ainda!) não chegamos ao cúmulo de nos digladiarmos numa terceira grande guerra. A nossa morte, portanto, é moral. Estamos em crise moral.


Começamos a nos matar quando permitimos uma proliferação insensata de juízos de valor equivocados e quando permitimos uma inversão dos valores, sobretudo quando o TER passa a ser mais valorizado que o SER. A inversão de valores está aí na nossa cara a todo o momento. Ocorre, por exemplo, quando um jogador, que não faz absolutamente nada de significante para a humanidade, recebe um salário um milionário, enquanto professores, enfermeiros e médicos, pessoas de quem a humanidade realmente depende, recebem salários ínfimos. Ocorre quando são disponibilizados milhões de reais para a construção de estádios de futebol, enquanto as escolas e hospitais caem aos pedaços e falta dinheiro para fomentar a pesquisa científica, que poderia trazer tão grandes progressos para a sociedade. Assistiremos jogos de futebol em estádios novinhos, com uma infraestrutura impecável, e após isso voltaremos para casa ignorantes, doentes e atrasados. Ocorre também quando a opinião pública, que sempre aceitou que a 'cantora' Gretchen ganhasse o seu pão de cada dia usando a bunda, resolve fazer chacota pelo fato dela estar trabalhando nos EUA como garçonete. Talvez este seja o emprego mais honesto de sua vida. É mais bonito para uma senhora, mãe de três filhos, ganhar a vida fazendo filme pornô do que servindo mesas?

Assassinar os bons valores é colocar veneno na bebida da posteridade. A construção do futuro começa sempre no presente e deve contar com a ajuda do passado. Muita coisa tem ficado para trás. O padre Fábio de Melo, em minha opinião uma das grandes mentes pensantes deste país, falou recentemente algo brilhante: "Precisamos de alguém que nos ensine o antigamente". Precisamos voltar e recuperar o que nos foi roubado de nós mesmos no decorrer da caminhada. Tanta modernidade de nada nos serve se não tivermos bases sólidas para sustentá-la. Ouvimos o tempo todo por aí que o progresso nos trouxe civilização. Será? Será que com toda esta tecnologia somos mais civilizados do que as tribos indígenas que produzem apenas o suficiente para o seu sustento e que dividem de forma igualitária essa produção sem permitir diferenciações?


Fazemo-nos seres vis (piores que os vampiros) quando queremos tudo, ao negar ou permitir que neguem a tantos homens e mulheres o direito à vida, à educação de qualidade ou à saúde. Nos colocamos na posição de inimigos de nós mesmos quando permitimos correntes opressoras, quando somos condizentes com tantas formas de maldade e preconceitos e sobretudo quando nos calamos, permitindo que a corrupção, o desrespeito e a desigualdade se proliferem. Somos inimigos de nós mesmos quando fechamos olhos, ouvidos e a boca em relação ao sofrimento alheio. Somos nossos inimigos quando permitimos nos acovardar diante da vida ou quando tememos ousar. Concorremos contra nós mesmos quando escondemos nossos candeeiros embaixo das nossas camas, impedindo que a nossa luz se irradie e ilumine toda a humanidade neste grande quarto chamado Terra, quando deixamos de comer o peixe por medo de engasgar com as espinhas, como diria Gondim, e também quando sucumbimos ao pensamento de que o pouco não vale nada. Precisamos pensar como Joe Henderson e perceber que o desafio não é fazer coisas extraordinariamente fantásticas, é fazer as coisas que qualquer um pode fazer, mas que jamais o fará por comodismo, preguiça, maldade ou seja lá pelo que for. Quase nunca lutamos e quando resolvemos lutar escolhemos alvos errados. Infelizmente os alvos escolhidos são nossos monstros internos, frequentemente identificados no outro.

Precisamos nos aliar. Precisamos (juntos) recuperar os valores que perderam-se em nossa trajetória. Não podemos perder de vista a luta pelo que é justo e pelo que é honrado. Não podemos perder o respeito, o amor e o senso de justiça em relação ao próximo. Sobretudo, precisamos cuidar melhor do palco e do futuro. O palco é o planeta, a natureza; O futuro são as crianças. É nelas que está a salvação ou ruína desta espécie chamada de Humana.


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Baiano. Professor. Capricorniano. 34 anos. Dependente de música, livros e internet. Apaixonado por gente inteligente.
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