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Data histórica na vida política deste país: A Câmara de São Paulo aprovou nesta terça-feira, dia 02/08, o Dia do Orgulho Hétero. O projeto foi aprovado em votação simbólica e ainda precisa ser sancionado pelo prefeito Gilberto Kassab. O texto é de Carlos Apolinário, deputado evangélico pelo DEM, e teve apoio da bancada evangélica.
Em seu blog, o autor do projeto diz o seguinte:
"A Câmara Municipal de São Paulo aprovou nesta terça-feira (02/08/2011) projeto de minha autoria que cria o Dia do Orgulho Hétero. Quero deixar claro que o meu objetivo não é combater a figura humana do gay. Até porque, como cristão, tenho a obrigação de amar a todos, independentemente de sua religião ou de suas preferências sexuais. Porém tenho combatido os privilégios e os excessos praticados pelos gays, entre eles a realização da Parada Gay na Paulista, enquanto de lá foi tirada a Marcha para Jesus, com o argumento de que a avenida não é o local adequado para grandes concentrações. Também me manifestei contra a entrega de camisinhas e gel pela prefeitura e pelo governo do Estado na Parada Gay de 2010.
Vou continuar respeitando a figura humana dos gays. Serei sempre contra qualquer atitude agressiva contra quem quer que seja. Porém continuarei combatendo os excessos e privilégios praticados pelos gays."
(Fonte: http://migre.me/5pq8l)
Eu não poderia me calar diante de um prato cheio como este. Gostaria de propôr algumas ponderações tomando por base as palavras do gênio que criou este projeto. :
1 - "Quero deixar claro que o meu objetivo não é combater a figura humana do gay".
Claro que não! O orgulho deve ser uma coisa natural. A gente tem orgulho porque tem que ter, nunca para ameaçar, contradizer ou fazer oposição a alguém. Se o seu orgulho for apenas para contrariar o outro, não dê a ele o nome de orgulho, o nome correto para isso é "picuinha".
2 - "Até porque, como cristão, tenho a obrigação de amar a todos, independentemente de sua religião ou de suas preferências sexuais".
O amor não é, nunca foi e nunca será uma obrigação. Se você ama porque é obrigado, você não ama. Walcyr Carrasco, autor de novelas da Rede Globo, foi preciso em um comentário que fez para a o Blog da VEJA/SP: " A grande importância de Cristo, no plano das idéias, da Ética e da Fé foi justamente transformar a visão de “olho por olho, dente por dente”, do Velho Testamento, em “amai o próximo como a ti mesmo”, do Novo. "O deputado, afirmando-se cristão, deveria conhecer mais os ensinamentos de Jesus, a quem diz seguir.
3 - "Porém tenho combatido os privilégios e os excessos praticados pelos gays, entre eles a realização da Parada Gay na Paulista, enquanto de lá foi tirada a Marcha para Jesus, com o argumento de que a avenida não é o local adequado para grandes concentrações".
Então está explicado. É realmente picuinha. O que o move não é o orgulho de ser hétero, é o desejo de vingança por causa da Marcha para Jesus. O nome disso eu já falei aqui no blog: Hipocrisia. É não viver o que sente, não ter coragem de assumir os sentimentos negativos e esconder-se atrás da capa da moralidade e da benignidade para dar vazão a sentimentos e ações pútridas. Quando estas pessoas irão entender que Jesus não quer e nem precisa de marcha nenhuma?
3 - Também me manifestei contra a entrega de camisinhas e gel pela prefeitura e pelo governo do Estado na Parada Gay de 2010.
Parabéns deputado! É bom mesmo que todo homossexual fique logo doente e morra, né? Isso é o que eu chamo de amar o próximo! Só gostaria de lembrar-lhe, que o coquetel de medicamentos que o Estado é obrigado a fornecer para TODO portador do HIV sai mais caro do que preservativos e gel, viu? O dinheiro para bancar esses medicamentos sai dos nossos impostos e poderia ser utilizado em coisas importantes, como melhorar a segurança ou o salário dos professores. Nosso dinheiro não nasce em árvores não.
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Duas questões muito sérias se colocam para mim neste momento: A primeira está relacionada exatamente a entender que tipo de orgulho uma pessoa heterossexual deveria sentir. A segunda fica no grande questionamento acerca do papel dos políticos em nosso país.
Ter orgulho hétero é a mesma coisa que comemorar orgulho de ser branco, de ser homem ou de ter nascido rico. Não é errado, mas é desnecessário. Grupos como o dos negros, dos homossexuais ou das mulheres tem orgulho porque passaram por fases históricas de opressão, de aniquilamento, de negação de direitos, de exploração. São grupos que superam preconceitos e tem que se reafirmar diariamente. Se não há hoje um dia do branco, do homem ou do rico é porque nunca precisou. São historicamente privilegiados e eu não vejo nenhum grande feito em festejar privilégios. Se orgulhar de poder andar tranquilamente de mãos dadas com a pessoa que ama, de poder beijar, e de poder se expor como quiser enquanto outros não podem fazer o mesmo, sendo que estamos num país onde todos são (teoricamente) iguais, é vergonhoso.
Tomando como base os gays, o grupo em questão, é necessário pensar que eles devem celebrar seu dia de orgulho. São eles que sofrem preconceito e discriminação na escola, em casa, na rua... isso quando não ocorre coisa pior. O dia do Orgulho gay é um dia de luta contra o preconceito, é um movimento político, tem uma razão de ser. Não é apenas uma comemoração ou uma satisfação de egos. Celebrar orgulho hétero é, em minha opinião, uma tremenda falta de bom senso, ou uma retaliação. Sejamos coerentes, né?
Minha segunda preocupação é muito maior que a primeira, afinal de contas, todo mundo tem o direito de ser idiota. O que não podemos é permitir que haja uma substituição do necessário pelo supérfluo. Há a necessidade de se pensar acerca do papel dos políticos em nosso país. É necessário observarmos atentamente o que esses homens estão fazendo nas cadeiras do legislativo. Pensemos criticamente: É para este tipo de coisa que elegemos esses caras? É para ficar criando dia disso, dia daquilo? Já não temos mais dias no calendário para tanta comemoração! Todo dia é dia de 2 ou 3 coisas.
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Este nobre deputado legisla em São Paulo, a maior cidade da América Latina, com a maior população do Brasil, e uma quantidade incalculável de problemas sociais e ele está preocupado com este tipo de picuinha? Que tipo de homem político é ele? Enquanto celebra o seu orgulho hétero, centenas de pessoas tem as vidas despedaçadas pelas drogas na Cracolândia. A educação, a saúde e a segurança estão cambaleando e ele, ao invés de pensar em saídas para problemas como estes, está pensando em celebrar orgulho de ser hétero? Faça-me o favor!
O que mais vem à minha cabeça neste momento é Renato Russo cantando Perfeição e nos conclamando a celebrar a estupidez humana, a juventude sem escola, a falta de hospitais, os roubos, as epidemias, o tráfico de drogas, o nosso passado de absurdos gloriosos, nossas injustiças, a fome, a intolerância e a incompreensão. Ficar pensando em um projeto de lei tão banal e mesquinho diante de tantas outras urgências que temos é de uma imbecilidade medonha. Mais do que isso: é desonesto para com a população. Ele está muito mais preocupado em lutar contra aquilo que a sua fé condena do que em buscar melhoria da qualidade de vida dos seus eleitores.
Deixo com vocês três questionamentos:
1 - Até quando iremos eleger políticos tão sem plataforma política séria e tão despreparados para lutar pelo que realmente interessa?
2 - Até quando iremos eleger políticos que não fazem nada a não ser mamar nas tetas do Estado enquanto fingem, com projetos de lei ridículos, que trabalham?
3 - Até quando iremos permitir esta mistura de religião com política? O Estado é LAICO. Decisões não podem ser tomadas em pautadas por convicções religiosas. Está claro, muito claro, que o deputado evangélico, foi movido muito mais por princípios religiosos e sentimento de revanche do que por orgulho de ser hétero ou qualquer outra coisa.
Enquanto a gente pensa, proponho cantarmos uma outra música, desta vez embalados por Cazuza e seu "Blues da Piedade":
"Agora eu vou cantar pros miseráveis /Que vagam pelo mundo derrotados / Pra essas sementes mal plantadas/ Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena Remoendo pequenos problemas Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz, mas não ilumina suas minicertezas (...)
Vamos pedir piedade Senhor, piedade Pra essa gente careta e covarde Vamos pedir piedade Senhor, piedade Lhes dê grandeza e um pouco de coragem."
6 comentários:
O mais "engraçado" de todo o discurso do "nobre" deputado é que em momento nenhum ele expõe onde reside o orgulho de ser heterossexual. No fim das contas ele conseguiu foi criar um dia da vergonha hetero.
Mais um texto maravilhoso Roney! Concordo contigo e vou pro coro...
"Vamos pedir piedade Senhor, piedade Pra essa gente careta e covarde Vamos pedir piedade Senhor, piedade Lhes dê grandeza e um pouco de coragem."
Sensacional o seu texto, é tudo o que eu penso, muito bem observado quando fala sobre o real objetivo desse projeto hipocrita, é claro que ele não está defendendo o "orgulho hetero" e sim a vingaça por causa da macha para jesus. Seria muito bom divulgar esse texo em outros sites..
Que a verdade prevaleça, diga não a ignorancia!
É isso aí pessoal. Ele não tem argumentos, o que deixa claro que o seu único motivo é uma picuinha: "Já que tiraram a gente da Paulista, vamos fazer um orgulho hétero".
É muito bom encontrar na internet blogs como o seu... Brilhante texto. Parabéns! Vou recomendar a todos que compartilham dessas ideais de respeito e tolerância tão ausentes de nossa sociedade. Afinal, qualquer um tem o direito de ter seus preconceitos idiotas, mas não possui o direito de contaminar as outras pessoas com eles e, muito menos criar um dia para celebrá-los.
É isso aí! Adoro gente inteligente.
É muito triste porque estamos nivelando as coisas para baixo. Essas manifestações tolas, desnecessárias, inclusive, mostram o quanto, politicamente, estamos retrocedendo. O autor do projeto e os seus eleitores, e, por tabela nós todos. Myrian Rios, hipócrita e demagoga, deve apoiar esse homem. Bolsonaro, cujo preconceito em relação aos gays o fez defender certas ideias nazistas, também concorda. Tiririca fez melhor. Manteve-se neutro. Não fazer nada é melhor do que criar uma lei dessa. Quem pensa que Tiririca é palhaço engana-se. Palhaços são os outros. O Brasil tem uma porção de coisas para resolver, e o nobre parlamentar que cria uma lei dessa, acredita intimamente estar contribuindo para o país, prestando-lhe um serviço. Na verdade ele demonstra sua inépcia e sua incompetência para o cargo que ocupa, porque criar leis inúteis é mais fácil do que resolver problemas que assolam o Brasil desde sempre. Calar, é apoiar, Roney. Com as poucas armas de que dispomos, no caso a palavra, é preciso dizer: NÃO! Não e não!
Téo
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