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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cada macaco no seu galho.

Ontem tive o desprazer de ler coisas tão desagradáveis numa rede social que me deixaram com um gosto de fel na boca. Antes de relatar o acontecido, quero deixar claro que essa postagem não tem nenhuma intenção de denegrir, descredenciar ou manchar a índole, o trabalho ou a competência de ninguém. Deixo claro que a pessoa de quem tratarei aqui é um professor da área de Direito em mais de uma instituição de ensino superior, um excelente profissional, com excelentes referências, bem preparado (até onde tenho conhecimento, tem nível de mestrado), mas nem por isso está isento de errar e, em minha opinião, perdeu  ótimas oportunidades de ficar calado.

Vejamos: o supracitado indivíduo postou numa rede social  um comentário sobre o esporte popularmente conhecido como MMA. Em seu comentário ele disse que o MMA é um retrocesso, um incentivo à violência, uma invasão do espaço dos "verdadeiros" esportes e que se trata apenas de um modismo midiático. São tantas falácias dentro de tão curto espaço que chega a ser vergonhoso. 

Provavelmente o "nobre colega" (como os advogados costumam tratar-se dentro dos tribunais) desconhece a máxima popular que diz que cada macaco deve manter-se no seu galho. Se ele não é da área educação física, não está credenciado a dizer qual esporte é verdadeiro e qual é falso. Sua formação em Direito não lhe confere direitos de conceituar o que é esporte, mesmo porquê esse terreno conceitual é muito movediço e pantanoso. Até mesmo os profissionais formados em áreas diretamente ligadas ao esporte têm dificuldade em estabelecer conceitos e demarcar os limites do que seja esporte, jogo e luta, haja vista que em muitos casos eles estão extremamente imbricados.

Provavelmente o professor desconhece algumas coisas básicas, como o histórico do MMA. O termo MMA significa, a grosso modo e em sua forma aportuguesada, artes marciais mistas. É uma mistura de técnicas de vários tipos de artes marciais e remonta aos jogos olímpicos gregos ainda no ano de 648 d.C. Se é uma moda, portanto, é uma moda que já existe há bastante tempo. Ao contrário do que ele pensa, não é o esporte que está ficando popular por causa da mídia, é a mídia que está abrindo espaço porque o esporte já é do gosto popular. Ora, não sejamos tolos, desde a antiguidade a humanidade já tem uma queda por sangue. O próprio Sigmund Freud em seus estudos debruçou-se sobre o tema da violência e percebeu que, ao lado da sexualidade, ela tem fortíssima propagação entre os impulsos humanos. Se existe há tanto tempo e é uma combinação de outras artes marciais, o MMA não pode ser considerado um retrocesso. No máximo, ele seria uma continuação do retrocesso (se fosse o caso). E mais: se o MMA é uma selvageria, devemos colocar no mesmo pacote o jiu-jitsu, o muai-thay e todas as outras lutas. Se levarmos em conta que só ocorre violência quando há um agressor e um agredido, não podemos considerar o MMA como uma violência, logo, também não é selvageria. Basta entender o mínimo sobre o esporte para saber que os competidores são conscientes do perigo, preparados fisicamente, estão em condições de igualdade e são beneficiados e protegidos por regras que regem o esporte. Existe um regulamento! MMA não é uma bagunça e eles não se matam!

Ao citar a política do pão e circo e comparar os lutadores de MMA aos gladiadores da Roma Antiga, ele entra em um outro território que não é o dele, é dos historiadores. Entrando nessa seara que não domina, ele comete um grave anacronismo (tentativa de aplicar o costume de uma época a outra): diz que os gladiadores estão retornando com força total. Reparem: gladiadores e lutadores de MMA não são a mesma coisa. Os gladiadores eram em sua maioria escravos e não tinham a opção de não lutar. Os lutadores de MMA o fazem por opção e não por imposição. Também temos que levar em conta que gladiadores perdiam suas vidas em arenas por estarem em um confronto sem regras e onde a morte era bem vinda. O MMA tem inúmeras regras. E mais ainda: o fator que eternizou a luta de gladiadores como peça  fundamental da política do pão e circo não foi a violência cometida e sim a espetacularização. Não precisa ser violento para ser pão e circo. Qualquer coisa pode ser parte de uma política de pão e circo, qualquer espetáculo, qualquer coisa que desvie a atenção do povo dos problemas políticos. Olhando por tal ótica, o futebol se enquadra perfeitamente. 

A acusação de que o esporte incita à violência é a mais tola de todas. Se formos dizer que as artes marciais incentivam a violência, devemos considerar também que a Fórmula 1, o motocross e outras corridas incentivam o excesso de velocidade. É bem elementar. Acho engraçado que nunca chegou ao meu conhecimento  NENHUM caso de pancadaria e quebra-quebra depois das lutas do MMA ou UFC, já em esportes "pacíficos" e "civilizados", como o futebol, a violência dos torcedores é recorrente. 

Infelizmente, isso foi só o começo. Posteriormente, ele disse que o MMA era o domínio da irracionalidade e que tinha a sensação de que a massa encefálica dos lutadores era afetada por tanta selvageria e que eles não deviam possuir discursos racionais. Conseguiram entender a gravidade do discurso? Insinuar que um lutador seja incapaz de discursos racionais é cometer a leviandade de generalizar e propagar um preconceito. É uma insinuação (velada, obviamente) de que todo lutador é burro. Estereotipação é o nome do que ele está fazendo e inscreve-se no mesmo discurso preconceituoso que diz que toda loura é burra, que todo pobre é ladrão, que todo negro é favelado, que todo gay é promíscuo, que toda mulher que gosta de futebol é sapatão e que todo homem tatuado é um malandro.

Após receber uma chuva de comentários discordantes, ele chegou a uma conclusão: nos dividimos em dois grupos, os que gostam da selvageria e os que preferem a racionalidade. Que pensamento maniqueísta mais tosco! Quer dizer que a gente só pode ser preto ou branco, bom ou mau, selvagem ou racional? Não somos muito mais complexos que isso? Quer dizer que se eu gostar de assistir uma luta eu estou condenado a viver na irracionalidade? Penso em quão tola uma pessoa é ao pensar que mesmo a selvageria não pode se inscrever no terreno da racionalidade. Os europeus cometeram a selvageria de exterminar tribos indígenas inteiras, mas nem por isso eles foram irracionais. A selvageria foi cometida em nome de uma política de dominação que lhe era lucrativa, logo, racional. Nem todo mundo que comete selvageria é irracional.

Não podendo me calar diante de tantos equívocos, eu disse que ele estava sendo generalista e preconceituoso. Ele, em contrapartida, me deu uma "dica", a de que eu deveria tomar cuidado com as minhas conclusões, e não deveria falar de quem não conhecia. Será que ele conhece todos os lutadores de MMA para estar tendo a sensação de que eles não tem discursos racionais? 

O fato é que as pessoas precisam entender que quando elas criam um tópico depreciativo sobre alguma coisa baseando-se em "sensações" que elas tem, estão dando aos outros o direito de também julgá-las baseando-se em "sensações" tidas sobre elas. Somamos a isso a intolerância: ele pode ter sensação de que lutadores de MMA são seres desprovidos de racionalidade mas eu não posso ter a sensação de que ele está sendo preconceituoso e generalista. Bem maduro, não? O protagonista da nossa história deveria também conhecer outra máxima popular, a que diz que quem fala o quer, ouve o que não quer. E mais: para a gente chegar numa rede social e criticar alguma coisa a gente tem que ter o mínimo de informação a respeito dela. Até para falar mal, é preciso conhecer. A relevância do comentário também poderia ser observada. Já dizem os orientais: "Quando fores falar, cuida para que as suas palavras sejam melhores do que o silêncio". No português claro: se for para falar merda, fica calado.


A título de informação para o nobre colega e demais interessados, as lutas são trabalhadas pelos profissionais de educação física até mesmo na escola por ser elemento da cultura corporal e, ao contrário de incitar à violência, tem outras finalidades: despertar a consciência corporal, aprimorar as habilidades, melhorar a postura e o equilíbrio além de aumentar a força, a agilidade, o reflexo e a capacidade de concentração. As artes marciais possuem inclusive, direções filosóficas e são reconhecidas como esporte por fomentar o método da autodefesa, exercício de condicionamento físico e desenvolvimento espiritual. Sendo assim, a despeito do que o nosso advogado ache ou deixe da achar, as artes marciais são esportes legitimados por quem é de direito, e, portanto consideradas como esporte tão verdadeiro como o futebol, o tênis, o vôlei ou a Fórmula 01 que já são (muito mais que o MMA) explorados pela mídia há décadas e ninguém fala nada.

No fim das contas, ficou o aprendizado: aprendi que o acúmulo de funções e títulos acadêmicos não são  sinônimo de gente tolerante, consciente, esclarecida e que ainda estamos longe, muito longe, de conseguirmos vencer os preconceitos e nos libertarmos da maldita mania de depreciar o outro para nos sentirmos melhores, mais racionais e mais civilizados. 
Postado por Roney Torres às 15:41 1 comentários Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook

domingo, 22 de abril de 2012

Amanhecer

Abriu os olhos. Rolou mais uma vez pela cama. Naquela manhã tão especial, a alma havia sido aberta junto com seus olhos. Quantas decepções seriam necessárias para se criar uma desilusão? Quantas mentiras são necessárias para o esvaziamento de um coração? Quanta dor e quanto descaso são necessários para provocar uma libertação? Quanta desumanidade é necessária para fazer secar o afeto de alguém?
Fechou os olhos. Rolou mais uma vez na cama. Naquele momento, com os olhos cerrados, viu seus últimos dias desfilarem diante de si. Buscou explicações, cavou enlouquecidamente atrás de argumentos, tentou cravar suas unhas nos galhos mais fortes da árvore da compreensão, mas já era tarde demais: já havia caído. Havia caído e se arrebentado no chão de si mesma. Caiu em si. Pensou no amor. Tentou se encaixar num mundo que não era mais aquele que havia escolhido para si. 
Rememorou. Reverberou. Descobriu que sem querer e sem perceber foi deixando de ser. Não era mais a pessoa de alguns meses atrás. Descobriu também que a pessoa com quem pensava dividir a cama e a vida já havia partido. Ou será que tinha realmente chegado algum dia? Engoliu secamente uma saliva que era tão escassa quanto aquela eternidade que sonhara para si. Pensou mais uma vez no amor. Pediu respostas e elas não vieram. Não haviam mais medidas paliativas a serem tomadas. Naquele dia, após dois ou três dias de um abandono presente, viu o quanto estava só. 
Reabriu os olhos. Alguma decisão precisava ser tomada. Não havia mais a menor chance de permanecer naquela teia. Pensou no outro e pensou em si. Procurou culpados. Procurou inocentes. Não os achou. O que viu com os olhos da alma, que se arregalavam naquele momento, foram dois seres dentro de um turbilhão. Em meio a tentativas de sobrevivência, apunhalavam-se.  
Levantou-se.Olhou-se no espelho e ele, com implacável sinceridade, mostrou-lhe que a dor e o amor são tão próximas que às vezes se misturam. Pensou no outro. Viu que era alguém que não se importava. Nem a sua dor, nem a sua doença, nem a sua alegria lhe interessavam. Pensou nas palavras de Renato Russo: tem gente que não sabe amar. Haveria como culpá-lo? Naquele momento sua memória havia se transformado em cinzas. Lembranças de uma noite de amor num hotel, de um passeio pela praia, de um encontro no meio de uma festa de universidade, de sussurros num quarto... simplesmente haviam se tornado pó. Não estava mais disposta a ver a sua força e a sua determinação serem confundidos com falta de sentimentos. Cansou de ser tratada como pedra. 
Percebeu que, ao invés de estar num leito de amores, estava num ringue e, se não encontrava em si mesma a capacidade de dar um ponto final àquela situação, daria ao outro os motivos para fazê-lo. Mentiu. Ridicularizou. Zombou. Naquele momento, amaldiçoou a sua família até a terceira geração não poupando nem o cachorro, nem a casa, nem o papagaio. Rugiu coisas que certamente lhe doeram mais dizer do que ao outro ouvir. Era necessário. Não poderia mais viver naquela situação. Se o preço para ser amada era livrar-se daquele a quem amava, ela estava disposta a pagá-lo. Não podia mais conceber a ideia de viver num relacionamento onde mais se cortavam do que se afagavam. Estavam sendo tristes acompanhados e ser triste acompanhado é mais doído do que ser triste sozinho. 
Saiu do canto da vida. Decidiu novamente caminhar, dobrar esquinas, se enveredar por becos tortuosos. Decidiu que preferia a sensação de caminhar sozinha do que a de estar abandonada quando mais se precisava. Sua companhia agora seria o tempo e a liberdade o seu refúgio. Esperaria por outros dias, outros tempos, outros motivos, outros amores e, quem sabe, pelo seu amor de volta. 
Sendo assim, foi. Na mochila, a vontade de viver. Nos bolsos, motivos para ser feliz. No coração, esperança. Na mente, a certeza de que ser feliz é uma obrigação.
Postado por Roney Torres às 21:31 0 comentários Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook

sábado, 3 de março de 2012

A vida da Gente


Recompondo-me do choro, termino de assistir à reapresentação do último capítulo da novela A vida da Gente. O “Gente”, grafado com letra maiúscula, é proposital. Não me recordo, por mais que me esforce, de nenhuma novela anterior ou qualquer outro programa da TV brasileira que tenha retratado o ser humano de uma maneira tão “Gente”. Sim, Gente com G maiúsculo, carregado de simbologia, de significados e de grandeza. Gente que acerta e que erra. Gente que vibra, que mente, que sonha, que se desespera, que ama, que odeia e que sofre. Gente que chora.

Minhas lágrimas não foram gratuitas. Nunca são. Se tem uma coisa que eu costumo economizar na vida, são as lágrimas. Não choro, em hipótese alguma, por pouca coisa. Não sou desses que curtem fossa. Sou dos que se recusam a sofrer por antecedência e que não fingem sentir o que não sentem, mas quando é para chorar, eu choro mesmo. Choro com dor no corpo. Choro com cada célula do meu efêmero organismo e confesso que poucas coisas me fazem tão feliz e me trazem tanto orgulho como conjugar em minha própria carne o verbo chorar. Ao chorar, eu me reconheço e me faço humano. Ao chorar eu abaixo a guarda e pratico o ato de me despir das armaduras que a vida me impõe. Além da dor, só a arte é capaz de me fazer chorar. E eu chorei com a A vida da Gente porque ela também é a minha vida.

A novela citada se mostrou como um diferencial desde o seu início. Recordo-me de quando vi a sua primeira propaganda. Sem nem saber direito do que trataria a trama, falei para o amigo que estava ao meu lado: “Essa novela vai ser excelente, ou, pelo menos, vai ser muito diferente”. Não me enganei em nenhum dos dois aspectos. A vida da Gente foi bem diferente, e, também por isso, foi excelente.

O que fez dela uma novela tão diferente? Tudo! Uma fotografia belíssima, diálogos profundos, um texto primoroso, uma trilha sonora criteriosa, dores levadas ao extremo, ausência de estereótipos e clichês, etc. A novela fugiu completamente do já tão batido script das outras produções globais: a guerra de mocinhos contra vilões, gente brigando pela presidência de uma empresa, os sotaques estranhos, homossexuais cômicos e caricatos e jargões do tipo “né brinquedo não” e “Tô rosa chiclete”. O último capítulo não teve o “Quem matou fulano”, nenhuma reviravolta imprevista e nem os vilões se dando mal no final, quase sempre morrendo ou enlouquecendo. Convenhamos, A vida da Gente nem parece ter sido produzida e veiculada pela Rede Globo de Televisão.

E a trilha sonora? A abertura trouxe, através da bela voz de Maria Gadú, a Oração ao tempo de Caetano Veloso. Sem dúvida, uma das melhores letras no nosso baiano. Além dela, tivemos Milton Nascimento, Zizi Possi, Rita Lee, Legião Urbana, Chico Buarque, Elba Ramalho e Cássia Eller. É uma seleção de artistas que dispensa comentários. Além deles, eu ainda destaco “Recomeçar”, interpretada por Tânia Mara (a melhor música da trilha) e Atrás da Porta, famosa pela interpretação de Elis Regina, magistralmente cantada agora por Marina Elali, que, em minha opinião, tem a voz bem melhor que a de Elis.

A ausência de um único personagem protagonizando a trama foi, certamente, o maior de todos os seus méritos. Como afirmou o diretor Jayme Monjardim (e eu concordo em gênero, número e grau), o protagonista de A vida da Gente foi o texto. Uma novela que em uma única cena cita Heráclito de Éfeso e João Guimarães Rosa e com eles constrói uma discussão sobre a fluidez da vida, não é uma produção qualquer. Os diálogos, colocados na boca de excelentes atores, ganharam vida e discutiram temas de importância máxima na vida humana, como as relações familiares. Texto extenso. Doloroso. Duro. O texto da novela, sempre carregado de sabedoria, me deixou ao final de cada capítulo com a sensação de ter tomado um soco no estômago.


Ao citar A vida da Gente como a minha vida, vejo-me correndo desesperadamente atrás do tempo perdido e tentando devorar a vida como Ana Fonseca, me vejo na imaturidade de Nanda, na orfandade de Tiago e de Francisco, na busca por uma maturidade e uma inteligência emocional como a de Manuela, na dureza de Eva, na frieza de Vitória, na vontade de vencer e provar que pode ir além de Sofia, no mundo onírico de Marcos, nas dúvidas de Rodrigo, na insegurança do Sr. Wilson, no trocar de pernas de Laudelino...

Eu também tenho a minha novela. Eu também sou um ator. A vida da Gente, também é a minha vida. Neste set de filmagens chamado Vida eu represento a minha história num palco chamado Tempo. Danço de acordo com os seus ritmos, espero de acordo com os seus caprichos, vejo o seu esculpir na minha carne as suas marcas. Sofro, dou gargalhadas, brigo, luto... tudo no mesmo palco.

Sobre a insistente alegação de alguns de que a novela não tenha sido tão boa porque não alcançou as mesmas pontuações no IBOPE que as suas antecessoras, acho descabido. Querer que A vida da Gente agrade ao grande público tanto quanto Araguaia ou Cordel Encantado é a mesma coisa que querer que Khaled Housseini agrade tanto quanto Paulo Coelho.  Khaled explora e expõe a dor mais aguda. Seus livros são densos, quase sufocantes. Quem leu O caçador de pipas sabe bem do que estou falando. Só apela para a questão de Ibope quem vê A vida da Gente apenas como entretenimento, coisa que a novela nunca se propôs a ser. Quem reclama da falta de humor, que vá ver a Mãe Iara (Aquele beijo), o Crô (Fina Estampa), o Tonho da Lua (Mulheres de areia) nos outros horários. Eu prefiro pensar que A vida da Gente seja como a obra de Clarice Lispector: Ou toca, ou não toca. Requer sensibilidade e maturidade. O horário foi um problema: o horário das seis, hora em que adultos estão no trabalho ou saindo dele, não é indicado para uma novela tão densa. Adolescentes não assistiriam esse tipo de trama. O que eles gostam é de pataquadas, coisas que não se encontra no folhetim em questão. Esperar que este público imaturo conseguisse enxergar toda a sua beleza e a sua profundidade, é, pelo menos, tolo.

Dizer que aprendi seria um exagero. Muitas coisas eu já sabia, portanto, eu relembrei lições preciosas. Ao final de cada capítulo, ao final de cada uma das catarses às quais eu me submetia, me relembrava de que ninguém está 100% certo enquanto o outro está 100% errado. Ninguém é doce o tempo todo. Nem todos são capazes de mudanças radicais, nem todos são capazes de atos humanos, nem todos sabem o valor do amor, da família e do perdão.

O tempo recebeu da novela uma homenagem justíssima. A ele todos nós nos curvamos, por bem ou por mal. Enquanto ele faz o que sabe fazer de melhor – passar – a vida da gente continua. Os amores mudam, as prioridades mudam, prioridades se invertem, pessoas se afastam, pessoas se aproximam, sonhos são perseguidos, outros tantos abandonados, e a gente vive. Vive esperando. Vive buscando. Vive correndo atrás. A vida da Gente é um devir. Um eterno vir a ser...


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